• Sophia Vieira

Vista a minha pele!

Por várias vezes alguns discursos saíam das bocas de colegas de trabalho, de familiares, de amigos, enfim, de gente em quem eu confiava.


O discurso “você não tem nada de diferente”, em geral, vem na tentativa desses colegas de me valorizar, mas eles não sabiam que isso machuca e muito pois só quem sabe o quão diferente sou, sou eu e mais ninguém, pois então, por favor, vista a minha pele!


O discurso “você faz tudo” ou “nunca reparei em nada” vem de gente que pouco convive comigo e tenta me tirar do lugar de deficiente. Desta forma estão sendo preconceituosos com os deficientes, tendo um discurso capacitista e desmerecendo as minhas batalhas que só quem enfrentou fui eu, pois então, por favor, vista a minha pele!


O discurso “isso é querer confete” é o que mais me chateia. Ninguém que tenha esse discurso pronto nos lábios sabe das minhas guerras, das minhas derrotas, meus medos, minhas pequenas danças com o diabo só veem a parte irritantemente alegre, prestativa e gentil. Eles não veem os punhos cerrados em posição de batalha, os dentes trincados à noite, as dores físicas e emocionais que dia a dia me consomem lentamente, não sabem de onde vem o pavio quando eu explodo ou em fúria ou o choro, pois então, por favor, vista a minha pele!


Nenhuma dessas pessoas me dá chance de defesa. Quando dão, vem dizendo que eu reclamo de boca cheia, mas nenhum veste esta pele.


A pele de quem demora mais para aprender, para confiar, que de vez em quando tem um mundinho particular para onde foge de toda a dor e tristeza.


A pele de quem não alcança uma prateleira alta, de quem não tem força para levantar um panela, de quem não tem o direito de ir e vir, pois não consegue dirigir, de quem faz tudo com um sorriso no rosto e uma lágrima nos olhos.


Pois então, por favor vista, a minha pele!