• Alisson Vianna

UM OLHAR EXTERNO

Não posso pensar em inclusão, excluindo a fala e ou experiência do outro.

Enquanto negro, quero entender o que as pessoas pensam, qual a percepção delas quando falamos de racismo. Claro que existem alguns sinais de que apenas quem está na situação consegue entender. Quando eu falo de sinais, me refiro ao comportamento corporal: olhares, gestos, sinais que as pessoas não percebem que fazem, mas que denunciam um desconforto com a presença do negro.


Acredito que vários elementos fazem com que a sociedade seja racista e partindo dessa atitude, senti a necessidade de ter um depoimento de um homem branco, casado com uma negra e assim relatando a sua percepção dentro desse cenário e buscando também o entendimento para nunca generalizar o olhar dos outros.


Depoimento sobre ser branco casado com uma negra.


‘’Sou J. V. V. S. V. e, em 31 de julho de 2009, uma noite gelada em São Paulo, conhecia aquela que seria minha esposa e mulher para a vida toda, A. C. S. V. V., uma mulher negra, linda, lábios carnudos, tranças no cabelo, botas, roupas justas, olhar e sorriso cativantes.


Foi um amor arrebatador, um desejo de beijar aquela boca, sentir o toque daquela pele macia, me enroscar naquelas tranças..., mas nada aconteceu. Depois desse dia, nos encontramos no próximo final de semana e, de forma surpreendente, nos beijamos e, dias depois, nosso relacionamento deu um passo com um ‘’sim’’ ao meu pedido de namoro. Até aquele momento, nunca havia namorado uma mulher negra. Já havia ficado com algumas, mas nada sério. Minha família, pais e irmãs, nunca criaram, ao menos em minha visão, qualquer empecilho pelo fato de minha namorada ser negra. Todavia, outros parentes próximos não demonstraram a mesma receptividade, em especial os mais antigos, como avós e tios mais velhos.


Pessoas nas ruas e shoppings nos abordavam dizendo ‘’parabéns que lindo, um casal interracial, parabéns!” Não foram uma ou duas, mas algumas vezes. Tais gestos me tocaram à época, mas minha esposa sempre demonstrava um comportamento gélido e distante, como se não estivesse gostando. O seu semblante mudava de um largo sorriso para alta irritabilidade. Ela questionava, logo depois, do porquê de as pessoas nos abordarem somente porque éramos um casal interracial, mas não abordavam um casal branco ou negro para esboçarem a mesma felicidade e contentamento. Aos poucos, fui percebendo as razões do comportamento de minha esposa, ainda que, à época, minha visão branca sempre questionava, ainda que inconscientemente, o agir de minha esposa e teimava em atestar que preconceito não existia, que seria coisa de sua cabeça (talvez herança cultural de sua raça), que todos os seres humanos eram livres e nascidos em igualdade de direitos, enfim.


Quando menor, quando ainda não tinha me relacionado seriamente com uma mulher negra, houve não uma moda (como à época imaginava ser), mas um movimento de valorização da cultura negra em que homens e mulheres usavam roupas com a escrita ‘’orgulho negro’’ ou ‘’100% negro”, ou algo assim. Nessa época, desprovido do conhecimento, empatia e experiência de vida que hoje possuo, me questionava como seria propagar aos ventos o meu orgulho em ser branco e demonstrar para todos tal orgulho. Hoje, entendo de modo diferente. Entendo o que minha esposa queria dizer quando relatava que eu jamais saberia qual a sensação de ser mulher e negra, que jamais saberia como era ser observado de modo diferente por ser negro ao simplesmente adentrar uma loja de roupas (algo tão normal para mim, branco), que jamais saberia as dificuldades e provações diárias por ter uma cor diferente do "padrão”, que a sociedade branca, em algum momento, estabeleceu.



O tempo passou, e nosso relacionamento se consolidou cada vez mais. Contudo, pessoas próximas demonstraram, ao passar dos dias, meses e anos de namoro, comportamentos estranhos, chegando ao ápice de uma tia indagar a minha mãe se ela seria capaz de andar nas ruas com um neto escurinho. Quando perguntei a um conhecido o que tinha achado de minha namorada negra, ele disse ‘’ah, bacana, mas não fico com mulheres depois das 18h’’, ou seja, mulheres negras.

Afastei-me desse amigo com o tempo.


A cor de minha esposa nunca me incomodou, de forma alguma. Sempre tive uma enorme atração por sua cor e respeito pela história de sua raça, ainda que já tenha ouvido comentários racistas, de modo geral.

Algo como ‘’serviço de preto’’ e ‘’dia de preto’’, são os que mais se destacam. Durante minha infância, um de meus melhores amigos era negro (seus pais também eram interraciais - ele branco e ela negra), mas nunca senti o menor desapreço ou indiferença por sua cor, em especial em casa, onde ele era sempre muito bem recebido. Também me sentia sempre bem acolhido na casa desse amigo. Namorar uma negra é diferente, sim, é verdade. É algo que foge ao padrão da sociedade. Minhas irmãs, por exemplo (tenho duas), namoraram e se casaram com rapazes brancos e, ao cabo de anos, geraram filhos brancos, olhos claros e “aceitos”, pela sociedade, tal como o padrão estabelecido. No meu caso, contudo, sempre tive consciência de que tudo seria diferente, de que meus filhos, se um dia viessem, seriam negros. Minha esposa sempre deixou muito bem claro que jamais admitiria o registro de nascimento como “pardo” ou “branco”. Disse diversas vezes, ainda que em tom de brincadeira, que sairia do hospital logo depois do nascimento atrás de mim (se apoiando naquele negócio de soro fisiológico) se eu ousasse pensar em registrar nossos filhos com essas características (risos).


Ao longo dos anos, fui começando a reparar que era mais comum a existência de homens negros acompanhados por mulheres brancas, geralmente louras, e bem difícil de encontrar homens brancos com mulheres negras. Chegou ao ponto de ouvir de um conhecido (ironicamente casado com uma mulher negra hoje) que somente “pegava”, mulheres negras na balada para tirar a “zica”.

Quando conversei com minha esposa a esse respeito (mais homens negros com mulheres brancas), ela disse algo esclarecedor. Disse que os homens brancos são covardes, que podem até se relacionar com mulheres negras, mas são poucos os que enfrentam a sociedade e até familiares pelo amor que nutrem por suas companheiras negras, se casam e constituem família.


Hoje realmente percebo o impacto de suas palavras. É bem fácil, com certeza, estar dentro dos padrões estabelecidos, namorar e casar com uma pessoa de sua mesma etnia e manter o mesmo “status quo ante”. No nosso caso, todavia, foi diferente. O tempo passou, nos casamos, formamos nossa família, temos duas “filhas caninas” e não me vejo sem a companhia da ”deusa de ébano”. Jamais saberei a dor, as batalhas e as aflições que minha esposa negra vive, viveu e com certeza viverá. Também jamais saberei como será que nossos filhos, se vierem, se sentirão sendo negros em uma sociedade racista, por mais que tenha empatia e tente me colocar em seus lugares.


Sou branco, nascido em uma família branca de classe média, sou oriundo de uma família bem estruturada e sempre tive acesso a boas oportunidades. Estudei em escola pública, mas meus pais brancos possuíam condições de suportar um curso de inglês e uma faculdade para cada um de seus filhos, ainda que cada um tenha escolhido caminhos diferentes ao longo de suas vidas.”


J. V. V. S. V. é um homem que faz parte da minha vida e tenho uma relação de muito carinho, amor e respeito. Nos nossos encontros sempre abordamos essa temática e percebo o interesse dele em entender o nosso sentimento em relação a essa desigualdade e olhar do outro referente ao racismo. Lendo esse depoimento que eu pedi para ele e, de prontidão, ele entendeu e topou sem relutar em escrever, alguns momentos eu sinto um desconforto em saber o que a esposa dele passou. Uma dor sabe?


Mas fico feliz, J. V. V. S. V., NUNCA saberá o que a sua esposa sabe, afinal entendemos que a dor é subjetiva e apenas quando faz parte do cenário, consegue entender, mas fico feliz de ele acreditar que essa dor existe e provoca danos irreparáveis e como um branco, precisa lutar e promover uma reflexão dentro desse contexto.