• Luna Nakano

Superando as expectativas (alheias)

Dentre todas as formas de preconceito que sofremos, a que vem de dentro de nossas casas é a que mais dói... Quando se convive com pessoas sem deficiência, principalmente quando essas pessoas são da família, as boas intenções podem se transformar em capacitismo, não quer dizer falta de amor, ou excesso de cuidado, mas esse zelo todo pelo bem estar de uma PcD acaba por subestimar as capacidades da mesma.


Engana-se aquele que acha que minha vida é perfeita, e que já superei todos os obstáculos que a vida impõe. No exato momento em que escrevo esse texto, estou com a cabeça cheia de dúvidas, porque ouvi que não sou capaz de cuidar da minha casa, exatamente com essas palavras.


Acho que desde sempre, mesmo antes da cadeira de rodas, sempre fui a que quebrou as expectativas que me foram colocadas. Cheguei a ouvir que eu era um peso, e que não fazia nada, não tinha trabalho, e que poderia ajudar mais nas despesas, eu tinha acabado de abandonar a faculdade de Artes Plásticas. Mas corri atrás, fui tentar arrumar um emprego, dei aulas de desenho por um tempo, depois me formei designer de interiores e trabalhei muito tempo no comércio. Ajudei a pagar as contas e paguei minha faculdade com meu salário. Depois disso, ouvi que não era uma boa mãe, ouvi que eu estava deixando meu filho doente, porque eu estava ausente trabalhando e estudando, e às vezes me dava ao luxo de ir beber uma cerveja no bar do João.


A vida é feita de fases, já tive a fase da vagabunda, da puta, da “menas mãe”, e agora a fase da inútil e incapaz. Haja terapia… E tudo isso dentro de casa. “Mas Luna, por que você nunca saiu de casa?” Boa pergunta, porque eu nunca saí? Acho que faltou coragem, faltou dinheiro para alugar um canto só meu, faltou uma rede de apoio. Faltou voz para pedir socorro.


Mas há também as fases boas, não nego, fases de curtir a família, de comemorar pequenas conquistas, de gratidão. Escrevo este texto, não como uma queixa, mas como um alerta para quem está passando pela mesma situação. Pois o capacitismo, principalmente, faz com que duvidemos das nossas próprias capacidades e potencial. Mas ele pode ser o combustível para nos reerguermos e provarmos o contrário, não para quem duvida de nós, mas para nós mesmos.


Será que isso é mesmo necessário? Ter que provar a todo momento nossa competência? Eu sei do que sou capaz, e até onde eu posso ir... Não preciso ser cuidada, mas também não preciso ser mal tratada. É difícil entender essa perspectiva?


Não tenho que cumprir expectativas de ninguém, no momento tenho trabalhado muito meu psicológico para não desabar, e trabalhado muito para que eu consiga a tão sonhada estabilidade financeira, e parece que as coisas estão fluindo. Ainda não dá pra meter o pé, mas enquanto isso vou aguentando as pedradas. “Rodas no chão” e devagar as coisas estão acontecendo.


Sinto muito, não posso cumprir suas expectativas, porque estou lutando para conquistar meus próprios sonhos.