• Amanda Leal

Sou autista e agora?

“Me queriam morta, presa, silenciada ou presa em um manicômio, mas não conseguiram”.

Essa frase de Luciana Viegas conhecida como @umamaepretafalando me impactou, me fez pensar na importância de falar sobre como está sendo o meu processo em busca do diagnóstico. Quero compartilhar a nova perspectiva pela qual eu me olho agora e como é, aos 29 anos, saber que não sou um conjunto de erros: eu sou autista.

Há mais ou menos 1 ano eu vi um vídeo na página Ter.a.pia (adoro essa página rs) do Tio Faso @seeunaofalarnaosaidireito, um homem negro que descobriu ser autista aos 35 anos. Eu lembro que o vídeo mexeu muito comigo, me identifiquei em várias situações que ele relatava e nunca ouvi ninguém falar sobre essas coisas que sentia tão forte em mim como o não pertencimento. Parecia que eu não pertencia a nenhum lugar, que não me encaixava em nada. As interações sociais eram cansativas e desgastantes.

Nesse período, estávamos no auge da pandemia, com esse desgoverno matando mais que o vírus, acabei perdendo meu emprego e tudo isso fez com que mais uma vez eu não me olhasse com a devida atenção. Claro que a avalanche de mudanças, mortes e incertezas que veio com essa pandemia, as crises ficaram mais constantes e os períodos depressivos se agravaram.

As mudanças no meu dia a dia foram perturbadoras, por mais que a minha rotina me sobrecarregasse de diversas formas eu fui da pessoa que trabalhava, fazia faculdade, para uma pessoa em isolamento social, tendo que me adaptar a milhares de situações novas como aula online, tudo sendo resolvido virtualmente (sinceramente, eu sou péssima nisso), minha esposa e minha irmã na linha de frente dessa doença avassaladora... fiquei à beira de um surto.

Há alguns meses eu entrei no que sei hoje que se chama hiperfoco* sobre autismo em adultos, principalmente autismo em mulheres, comecei a estudar, procurar pessoas que receberam o diagnóstico tardio, comecei a fazer terapia - que vou trazer mais pra frente a importância da terapia nesse meu processo. Foi a primeira vez que me reconheci em outras pessoas. Lembro que li um relato e a pessoa dizia como abraços podiam ser dolorosos para autistas e eu chorei, pois, abraços sempre foram uma questão muito forte pra mim.

É assustador como todos os dias eu aprendo mais sobre os meus limites e sobre como respeitar o meu corpo, como muitas coisas passaram a ter sentido. Fui de uma mulher de 29 anos que se achava apenas um conjunto de erros, fracassada, com uma tentativa de suicídio no histórico, para uma mulher autista. Passei a me olhar por um novo prisma, hoje percebo quanto tempo gastei me odiando, me sentindo uma farsa e como eram dolorosas as tentativas de me encaixar em algo.

Sob essa nova ótica, quero me apresentar de novo:

Bem vindes! Aqui vamos falar sobre como é ser uma mulher negra, sapatão e autista e que está há 29 anos contrariando as estatísticas.

*Hiperfoco – quando nos concentramos em um tema de forma intensa por muito tempo