• Luna Nakano

Sobrevivo

Estou aqui para fazer um desabafo… O ano está terminando e dia 03 de dezembro é o dia internacional da luta da pessoa com deficiência. Para alguns vai parecer exagero, com certeza, mas ninguém está na minha pele pra sentir, e nem perto o suficiente pra perceber qualquer coisa. Nesse dia, também faz um ano que comecei meu trabalho nas redes sociais postando coisas sobre inclusão e eu sei que tem gente que faz isso há muito mais tempo, mas eu estou exausta, e cansada de falar com as paredes (metáfora).


Tem muitas pessoas que me lêem, curtem alguma coisa ou outra, tem gente que acompanha os stories assiduamente, mas falar de inclusão da PcD é uma luta que não é reconhecida. Falta muito ainda pra colher os frutos desse trabalho.


Em qualquer lugar que eu vá ou que eu queira ir, eu não sou bem vinda, não tem acessibilidade. Não estou falando que as pessoas não gostam de mim ou me fazendo de vítima, essa é a realidade de um quarto dos brasileiros. São raros os lugares em que uma cadeirante pode ir pra se divertir, passar o tempo, fazer compras sem depender de ninguém. Não dá pra dizer que “podemos fazer qualquer coisa, basta se esforçar”. A realidade é muito mais cruel do que você imagina.


Dentro desse um ano de redes sociais, sabe quantos trabalhos sobre inclusão foram remunerados? DOIS. Em um ano, eu recebi pelo meu trabalho só duas vezes. Todos os posts, vídeos, reels, eu faço com muito carinho, eu sei da importância que eles têm, faço isso voluntariamente. Cada texto é pensado, estudado, pesquisado. Fico horas escolhendo as palavras. Mas em um ano meu trabalho foi realmente reconhecido apenas 2 vezes. Convites para lives, participação em eventos, falar sobre inclusão, tudo isso teve nesse um ano, só que parece que sempre temos a obrigação de fazer isso gratuitamente. Temos a obrigação de ficar reeducando as pessoas, com as mesmas pautas. Isso também é capacitismo.


Eu tenho buscado, a minha vida toda, esse tal reconhecimento. E ele sempre vem em forma de frases como:


  • “Nossa, você é uma excelente aluna.”

  • “Você manda muito bem nos projetos.”

  • “Seu trabalho é incrível!”

  • “Você desenha muito.”

  • “Você tem talento!”


Eu gosto de ouvir essas frases, quem não gosta de ser elogiado, não é mesmo?! Mas eu gostaria muito que as frases se transformassem em créditos para pagar minhas contas, créditos pra eu comprar um presente de Natal pro meu filho, créditos pra eu me presentear com um rodízio de sushi de vez em quando. Reconheço que tenho muitos privilégios, sei que existem milhares de pessoas que não tiveram as mesmas oportunidades que eu tive, talvez, quem esteja lendo, possa pensar - “ela está reclamando de barriga cheia”. Tenho sorte de morar com meu pai, nunca passei fome, nunca me faltou nada… E isso me faz refletir muito: e se eu não tivesse meu pai, morasse sozinha com meu filho? Eu seria uma mãe desempregada, que depende da pensão alimentícia que não chega a meio salário mínimo.


Nesse um ano eu sobrevivi. Sobrevivo assim há longos anos, já que desde que terminei a faculdade vivo nessa instabilidade financeira, com um trabalho aqui, outro ali. Sem falar na solidão, que às vezes bate, porque cada um está lá fora vivendo suas vidas, conforme lhe cabe, e eu permaneço, sobrevivo no esquecimento.


Ano passado fiz uma lista de desejos para realizá-los em 2021. Não realizei nenhum. Pode ser que a pandemia tenha colaborado com isso, mas o fato é que eu não consegui realizar nenhum dos cinco desejos colocados na lista, eram simples, mas não foi dessa vez. Para 2022, talvez eu faça apenas um desejo: VIVER. E que todos possam fazer o mesmo da melhor maneira possível.