• Camila Napolitano

Quando o trabalho de casa acaba?

O trabalho doméstico foi, por muito tempo, direcionado às mulheres, isso vem mudando aos poucos em algumas famílias, mas de maneira geral, isso ainda é uma realidade. Pelo menos aqui no Brasil.

Ele foi utilizado como uma maneira de calar nossa voz e nos tirar de posições de poder. Enquanto nos preocupávamos com a arrumação da casa, quem ditava as regras eram os maridos. E isso diz muito sobre o tipo de sociedade que criamos ao longo dos anos.


Segundo uma pesquisa de 2018 feita pelo suplemento Outras Formas de Trabalho da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua e divulgada pelo IBGE: As mulheres dedicaram, em média, 21,3 horas por semana com afazeres domésticos em 2018, quase o dobro do que os homens gastaram com as mesmas tarefas – 10,9 horas.


Desde pequena, eu sempre ODIEI arrumar a casa, minha mãe sempre brigava comigo e mesmo assim nunca fazia. Hoje eu me arrependo, pois fico pensando no tanto que ela, mesmo cansada, ainda tinha que fazer o trabalho de casa. Atualmente, morando sozinha, eu tenho que fazer, claro e comecei até a pegar gosto por algumas coisas. Sinto que o trabalho doméstico muitas vezes é sedativo, pois simplesmente ligamos o automático e o tempo passa. Quando vamos ver, o dia já acabou e ficamos o dia todo só fazendo as tarefas de casa.


Essa conversa me remete muito à frase da Clarissa que já falei várias vezes no Desperta, Mulher!:

"Já vi mulheres que insistem em limpar toda a casa antes de sentar-se para escrever... Sabemos que um aspecto curioso do trabalho doméstico é o fato de que ele nunca acaba. É o jeito perfeito de paralisar uma mulher." Clarissa Pinkola Estés


Nós mulheres estamos conquistando cada vez mais espaços, seja nas escolas, em cargos de liderança no trabalho, empreendendo, escolhendo mais conscientemente se quer ou não ter filhos, cuidando de nós mesmas com mais amor.

Mesmo isso sendo bom, o que acontece é que vão se agregando cada vez mais papeis e o peso vai ficando cada vez maior. Quando vamos fazer o trabalho doméstico, como ele é um trabalho que nunca acaba, como arranjar tempo de fazer as outras coisas?

Por exemplo: no meu caso, eu trabalho CLT gerenciando um e-commerce de doces e liderando outras pessoas, um cargo que já é exaustivo por si só; tenho o Desperta, Mulher! que é meu modo de empreender no mundo, sou colunista do portal, faço pós, curso, tenho amigos, família e o trabalho doméstico.

Aos finais de semana, percebo que, se deixar, passo o final de semana todo só fazendo coisas de casa e que horas sobra para todo o resto? A que horas você cuida dos seus sonhos, projetos, das coisas que você realmente se importa?


Falo tudo isso sabendo que estou numa posição “privilegiada” por não ser mãe, pois quem é mãe, tem o dobro de tarefas (principalmente, domésticas) para lidar. É importante deixar a casa organizada, até para que você viva melhor, mas até que ponto ela é mais importante do que outras coisas que talvez te tragam mais felicidade em longo prazo.

Se nossas mães e avós já diziam que o trabalho doméstico é ingrato, elas diziam por algum motivo.

Agora, você junta tudo isso com toda a nossa procrastinação do dia a dia, com as redes sociais e todas as cobranças que elas nos trazem, fazendo com que a gente fique horas e horas só rolando um feed?

E aí dizemos que não nos sobra tempo para nada, será que não temos ou ele é usado por coisas que nos falaram que eram extremamente importantes e essenciais para nossa vida?

Então, o que quero deixar de sugestão aqui é para que você reflita quanto do seu tempo você tem dedicado a tarefas domésticas? E principalmente, a que horas você descansa? O quanto tudo isso é realmente importante para que você permaneça feliz e tenha a vida que sempre quis.

No meu trabalho falando de gestão do tempo, eu sempre sugiro fazer um relatório de como o tempo é gastos, quantas horas para cada coisa, justamente para que a gente consiga ter mais consciência das coisas e assim, possa fazer escolhas melhores.

Nós, mulheres, temos uma força incrível para fazer mudanças estruturais na sociedade, mas antes de tudo, precisamos descobrir que temos essa força.