• Marina Zaneti

Quando me olhei e (não) me vi mulher.

Eu não me vi mulher desde o momento em que nasci. Escolheram-me um nome feminino, colocaram-me vestido, fui educada para “ser uma boa menina”. De família católica, branca e de classe média, aos poucos entendi o que, dentro da cultura em que cresci, era ser “menina” ou “mulher”. Logo cedo fui apresentada aos contos e histórias de princesas, muitas eram frágeis, infantis e machistas. Esperavam passivamente a chegada do príncipe que as salvariam das trevas, da prisão. Enfim, que as libertariam.


Assim como um objeto que se escolhe na vitrine de uma loja, fui educada a aguardar “ser escolhida”. Ao mesmo tempo, por não me considerar “bonita o suficiente”, fui estimulada por minha família a estudar e, assim, garantir o meu próprio sustento. Sorte a minha, já que pelo menos construí minha independência financeira, o que trouxe certa liberdade para viver o afeto genuinamente amoroso e a construção de um vínculo em detrimento à questão material.


De novo privilegiada. Quantas e quantas mulheres ainda permanecerão encarceradas sob uma união estável que lhes traga um mínimo de segurança? Donas de casa que fazem um trabalho árduo e pesado, sem receberem salário? Fechadas e bem “domesticadas”, quase invisíveis, inclusive para si mesmas. Cuidadoras, mães, esposas, seres quase sem-nome.


E, sendo mulher, percebo claramente essas marcas dos papéis de gênero, em mim e no mundo ao meu redor. O ser mulher como “uma dádiva”, por ter um útero e poder ser mãe. A maternidade envolve, além de grande responsabilidade, uma decisão que vai muito além de “poder parir um feto”. Mas a sociedade patriarcal deseja com todas as suas forças que sigamos um padrão, que formemos uma instituição chamada “família”, com todos os elementos necessários e rigorosamente planejados. Afinal, nós mulheres nascemos mesmo para isso, não é mesmo?


Como psiquiatra clínica é muito comum atender a mulheres maduras, guerreiras, trabalhadoras e incríveis machucadas após anos de relacionamentos abusivos, completamente destruídas por dentro. Mesmo fortes, veem-se totalmente vulneráveis, sentem-se fracassadas, especialmente quando o casamento não vai bem ou quando culminam no divórcio. Já que o castelo desmoronou. Mal pensam que, talvez, ele nunca tenha existido.


Custa muito caro existir emocionalmente. O pensamento é constante, as angústias e neuroses também. Ser mulher, mãe, esposa, não importa. Precisa, acima de tudo, fazer sentido e ser coerente para você, mulher. Não espere ser escolhida e, sim, escolha. Esteja presente, sendo dona de casa ou quaisquer outras funções a exercer e que seja infinitamente legítimo. Libertando-se de uma vez por todas da máxima ilusão do “felizes para sempre”.