• Bella Neto

Precisamos falar do fim do Mundo.

Precisamos ter essa conversa, mas antes quero me desculpar com vocês que esperavam e merecem uma periodicidade e por motivos mil não pude cumprir esse compromisso com o Portal, com os leitores e comigo também, por não me permitir parar e me dedicar à escrita que vai além de uma ferramenta de comunicação para mim, é uma ferramenta de poder, autoconhecimento e prazer. Sinto muito pela ausência, mas seguimos na tentativa de nos organizar para que a vida, mesmo rara, possa ser contemplada.

Isto colocado, vamos à nossa conversa.


Vocês já se deram conta que estamos vivendo o fim do mundo?

Que estamos passando por um apocalipse?


Apocalipse mesmo, com todos os elementos necessários para tal, a gente só não tem tempo para olhar verdadeiramente pra isso. Passei alguns finais de semana trabalhando em outras cidades (sou moradora de Guarulhos, grande São Paulo), e acordar muito cedo para chegar em cidades aqui da região me fez perceber que, depois de mais de um ano e meio de pandemia, andar de ônibus me causa enjoos e me concentrar no transporte público para não passar mal me fez olhar pela janela e ver o mundo acabando.


Estou falando de ver cada dia mais e mais pessoas em situação de rua, e estar nas ruas com sua família. São famílias inteiras se espremendo em pequenos espaços debaixo de viadutos, pequenas barracas, barracos... carrinhos de coleta de resíduos sólidos para reciclagem improvisados fazem filas nas entradas de becos, pessoas revirando o lixo, falta emprego, falta dignidade e nos falta também humanidade.


Tivemos, durante a semana passada, a maior manifestação da luta dos povos originários e a grande mídia se não os ignorou, não chegaram nem perto de darem a eles a devida importância, e o que a luta dos povos originários tem a ver com o fim do mundo? São esses povos que podem nos salvar do colapso que está acontecendo, são eles que podem nos ensinar a conviver em meio aos outros seres que aqui coabitam e assim termos ideias de como adiar o fim do mundo (como Ailton Krenak propõe). *(https://pt.wikipedia.org/wiki/Ailton_Krenak)


Estamos vivendo uma urgência climática e isso mostra o quanto precisamos lutar para que o fim do mundo seja adiado.


É sabido também que vivemos esse apocalipse há muito tempo, a cada corpo preto tombado pelo Estado, a cada mulher morta pelo machismo e misoginia, a cada mulher trans que tem sua existência negada e negligenciada, a cada grupo étnico vulnerável que perde o direito à vida, são passos largos em direção ao fim da nossa humanidade, que hoje nos resta tão pouco dela.


Talvez falar sobre o fim do mundo precise de mais tempo, nos vemos por aqui em breve.


Tenhamos Coragem e Sejamos Gentis!