• Najeen Dahu

OS ORIXÁS E A TRANSGENERIDADE

Conceituando

Olá, galerinha linda da Internet! Hoje a tia vai falar sobre transgeneridade nas religiões que cultuam aos Orixás. Bora lá pra um papo bem legal!

Primeiramente, precisamos deixar bem claro que Orixá e Candomblé não são a mesma coisa. Orixás são divindades cultuadas majoritariamente pelos povos de origem yorubá, também chamados de nagô, oriundos do sudoeste do continente africano, mais especificamente Nigéria, Benim (antigo Daomé) e Togo. Grande parte dessas divindades foram reis antigos que foram divinizados, se tornando parte das energias da natureza.

Candomblé é uma religião que nasceu no Brasil após a diáspora dos escravizados, sendo subdividida, no Brasil, em “nações”, de acordo com a etnia e dialetos falados, havendo as três mais conhecidas:

  • Ketu/Nagô, que falam o dialeto yorubá e cultuam aos Orixás;

  • Djedje/Jeje, oriundos Togo, Gana, Benim (antigo Daomé) e regiões vizinhas, e compreendem os povos fon, éwé, mina, fanti e ashanti, sendo seu dialeto majoritariamente o éwé e eles cultuam divindades chamadas Voduns; e

  • Bantu/Angola, povos provenientes do noroeste africano, que falam, em sua maioria, os dialetos kimbundu, umbundu e kikongo e cultuam divindades chamadas Nkisi.

Tendo em vista essa distinção, entendemos que o Candomblé, assim como todas as religiões, foi criado por seres humanos e, sendo assim, está suscetível a ser levado de acordo com as concepções, conceitos e preconceitos dos seres humanos. Sabemos que o Candomblé é conhecido como uma religião das mais inclusivas e abertas à diversidade sexual que existe. Porém, quando partimos para a diversidade de gêneros, a coisa muda de figura e vemos argumentos idênticos aos de cristãos conservadores, que sabemos terem base em seus preconceitos, como Biologia, que Deus (ou os Orixás, nesse caso) só fez homem (com pênis) e mulher (com vagina) etc.


Como era antes da Colonização?


A colonização da África teve início no século XV, quando Portugal dominou os primeiros territórios da Costa Atlântica do continente, enquanto buscava novas rotas para o comércio com a Índia. Antes desse contato com o povo e religião europeia, os povos do continente africano já tinham suas próprias culturas, crenças e história, que foram interrompidos pelos processos de colonização e escravização.

Entre essas tradições existiam crenças que diziam respeito à transgeneridade (que não recebia esse nome, que é denominação contemporânea), estando elas em várias regiões, incluindo o Dahomé/Benim, Nigéria e Angola. Dentre elas encontramos o exemplo no reino de Ndongo, governado por Nzinga, uma pessoa não-binária, militar e guerreire. Elu governou sob o título de Rei, ao invés de Rainha ao assumir o trono de Ndongo, após a morte de seu irmão, Ki Mbandi, em 1624.

Por volta de 1630, Nzinga tomou o reino de Matamba (Ndongo Oriental), terra evocativa de seus ancestrais e tradicionalmente governada por mulheres. Nzinga claramente ocupou um espaço na sociedade africana onde lhe permitia uma identidade e expressão de gênero não-binária. Sua história é conturbada e cheia de aventuras liderando uma guerra contra os portugueses. Portava trajes considerados europeus por vezes, e vivia rodeada de um harém de jovens 'homens’ com expressões feminina que foram suas 'esposas’. Também conhecides como Chibados, eram pessoas não-binárias/transfemininas que foram avaliadas como conselheires para governantes e chefes, como líderes de rituais espirituais e como aqueles que enterravam os mortos.

“Ela recusava o título de rainha e fazia questão de ser chamada rei. Por isso que decidiu tornar-se socialmente quase homem e ter um harém, com os concubinos vestidos de mulher. Por isso que lutava como um soldado, à frente do exército. Na realidade, Nzinga estava a criar a sua tradição, a sua legitimidade, os precedentes que permitiriam a suas netas e bisnetas ascenderem, sem contestação de gênero/sexo, ao poder.” (Costa e Silva).

Muitos outros exemplos de identidades fora do padrão binário e ocidental foram documentados por todo o continente Africano pré e pós-colonial, dentre essas identidades, listamos essas para futuras pesquisas:


Agule (Lugbara, Uganda/Congo), Ashtimee (Maale, Etiópia), Chibadi (Ndongo, Angola), Gordijiguenes (Dacar, Senegal), Insangoma (Zulu, Africa do Sul), Inzili (Bagisus, Uganda), Jin Bandaa/Quimbada (Angola), Khaal (Egito), Khawal (Egito), Kiziri (Maragoli, Quênia), Londo Mashoga (Suaíli, África Oriental)), Mino (Dahomey, Benim), Mudoko Dako (Langi, Uganda), Mumeke (Egito), Okule (Lugbaras, Uganda/Congo), Sagoda (Konso, Etiópia), Sekrata (Antandroy/Hova, Madagascar), Shoga (Suaíli, Africa Oriental), Skesana* (Zulus, África do Sul), Stabane (Zulu, África do Sul), Tchindas (Cabo Verde), Yan Daudu (Hausa, Nigéria), Wandarwarad (Amhara, Etiópia)


*Obs: Skesana significa literalmente intersexo, mas nesse sentido de identidade, poderia ser como o que chamamos de intergênero, am/bigênero, e andrógino aqui.


Curiosidade: O próprio binário de gênero na África pode ser bastante diverso e plural. As tribos Somali, por exemplo, reconhecem duas categorias de homens. Os Waraleh ("guerreiro”) e os Waddado (“xamãs”). Para homens e mulheres gay ou bi também existem diferentes tipos de identidades. O antropólogo Gill Sepherd observou que na língua Suaíli (falada a Africa Oriental por ex: Quênia, Uganda e Tanzânia) existiam variações de gênero masculino e feminino conhecidas como Shoga, Basha, Hanithi, Msagaji, Msango, semelhantes aos termos da subcultura Gay e MOGAI.

Dentro os povos Dagaaba na atual Gana, Burkina Faso e Costa do Marfim, a identidade de gênero é determinada de forma diferente. Nosso conhecido xamã Malidoma Somé, de Dagaaba, diz que gênero para a tribo não depende da anatomia sexual. “É puramente algo energético. Nesse contexto, quem é fisicamente 'masculino’ pode vibrar energia feminina e vice-versa. É aí que está o gênero real".

Os povos igbo da Nigéria, na África Ocidental, parecem atribuir gênero por volta dos 5 anos de idade. Na África Central, os povos Mbuti não designam um gênero específico para uma criança até depois da puberdade, em contraste direto com a sociedade ocidental. (Transgender History & Geography, Bolich)


Transgeneridade nas Figuras Divinas


A crença em divindades espirituais não-binárias estabeleceu as bases para a aceitação de comportamentos trans e não-binárias nas sociedades africanas.

Na mitologia de Daomé (utilizada e cultuada nos candomblés de nação Jeje no Brasil), uma das principais divindades africanas e não-binárias do panteão vodu é a divindade andrógina e criadora Mawu-Lisa, formada por irmãos gêmeos de gênero binário filhes de Nana Baluku. Associade ao sol e à lua na mitologia de Daomé, em alguns mitos, Mawu é a irmã gêmea do deus masculino Lisa; em outros, ambas as divindades são aspectos da mesma divindade andrógina ou dois espíritos de Mawu-Lisa sem distinção de gênero.

Na mitologia Yorubá temos os chamados Orixá Metá-Metá (literalmente meio-a-meio), entre eles, os mais conhecidos são Logun-Edé, Orixá que preside a pesca, a vaidade, é cultuado nos rios e nas matas e que é composto pelas energias de sua mãe Oxum e seu pai Oxóssi, não sendo nem um nem outro, e também nem homem, nem mulher, mas uma divindade andrógina que é seis meses um e seis meses outro, um dos poucos Orixás que utilizam filá e saia (ambos elementos de vestuário tidos como “femininos”).

Também temos Otim, Orixá cultuado como masculino, porém, segundo lendas, nasceu com seios e vagina, mas nunca se identificou com o gênero feminino, sempre utilizando roupas tipicamente “masculinas” e sendo tratado como homem e vivendo na mata com seu pai Oxóssi. Além desses dois, temos o mais famoso, Oxumarê, Orixá das chuvas, do arco-íris e das cobras. É dito que Oxumarê é meio ser humano e meio serpente e que, assim como Logun-Edé, é seis meses homem e seis meses mulher.


Colonização dos Povos Africanos, Sincretismo e Reprodução de Preconceitos

Com a colonização, escravização e diáspora dos povos originários do continente africano, eles foram coagidos a largar e, algumas vezes, abominar suas crenças, hábitos, vestimentas etc. Porém nossos ancestrais não se renderam completamente a essa dominação. Eles usaram de vários métodos para se esconder e camuflar, como o sincretismo religioso. Nele vemos que Orixás, Voduns e Nkisis foram assimilados como santos católicos, suas festividades e símbolos foram integrados às festividades e símbolos católicos. Temos, por exemplo, a lavagem da escadaria da Igreja do Bonfim, em Salvador-BA, onde adeptos do Candomblé encerram as festividades das Águas de Oxalá na quinta-feira antes do segundo domingo após o dia de Reis, juntamente com o novenário solene e exposição do Santíssimo Sacramento, que é interrompido apenas no dia da lavagem. Também temos o resguardo da Quaresma, os quarenta dias que precedem a Páscoa, pois nessa época não se podia realizar festas nem nada do gênero e, sendo assim, os terreiros também não podiam tocar.

Com a colonização dos nossos ancestrais pretos, veio também, claro, a imposição das leis, hábitos e religião europeias. Era proibido pela Igreja Católica, por exemplo, qualquer tipo de “inversão sexual”, chamada de sodomia, incluindo aqui homossexualidade, transgeneridade, travestilidade e, por que não, cross dressers. Lembremos que as definições de gênero ocidentais são feitas a partir do órgão genital com o qual a pessoa nasce e, assim, são adequadas a esse gênero as roupas, conduta, comportamento, tarefas etc.

Qualquer coisa que fugisse a essa regra era condenada à fogueira em praça pública, amaldiçoamento do condenado e sua família até a terceira geração e seus bens eram confiscados pela Igreja, tudo de acordo com o Código das Ordenações Manuelinas e o Código das Ordenações Filipinas, compilações jurídicas utilizadas por Portugal nos séculos XVI e XVII.

Assim sendo, acabou-se por reproduzir dentro do Candomblé os preconceitos advindos dos colonizadores, incutindo até sobre os Orixás e fundamentos da religião, coisas que não eram encontradas em território africano antes da colonização, mas que interferem nos egbés (comunidades de terreiro) e naqueles que deles fazem parte até os dias atuais.


O Que os Orixás Têm a Dizer

Mas afinal, o que os Orixás têm a dizer sobre as pessoas trans que fazem parte do Candomblé? Eles têm a dizer o mesmo que Jesus disse em sua época sobre o mesmo assunto: Nada. Levando-se em consideração que Orixás, Voduns e Nkisis são energias, eles não olham para os órgãos genitais e, muito menos o gênero de seus filhes, gêneros esses, que são construções sociais baseadas em sociedades europeias e ocidentais. Orixás vão muito além do que nossa mente consegue conceber e assim, é difícil, quiçá impossível, que qualquer pessoa consiga definir, o que Orixá é e qual sua vontade, sem levar em consideração os conceitos, hábitos e costumes que têm sido trazidos há tantos anos.

Por hoje é só, pessoal!

É necessário que descolonizemos nossos pensamentos, nossa religião, e façamos com que o Candomblé evolua, acompanhando a evolução da sociedade. Isso não é ir contra as tradições, muito menos contra a religião ou os Orixás, isso é nos esforçarmos para que a religião não caia no ostracismo e seja sempre realmente inclusiva e que acolha toda a diversidade, respeitando essa diversidade e a individualidade de todos que praticam essa religião e a amam. É grande o número de pessoas trans que abandonam a religião por não se sentirem aceitas e/ou respeitadas dentro de seus ilê axés/nzos. A religião que não acompanha a evolução da sociedade tende a desaparecer. Fiquem bem, até a próxima, beijas da tia.