• Claudia Kopelman

O ateliê terapêutico em diferentes contextos

Sou de uma família em que a arte sempre foi valorizada. Por ter a sensibilidade que tenho, ser expressiva e muito criativa, minha mãe teve uma grande sacada: me matriculou em uma escola de artes, por volta dos 7 ou 8 anos. Frequentei até meus 13 anos pelo que me lembro. Foi algo importante e determinante na minha infância.

Por viver essa experiência quando criança, acredito no poder transformador e curativo da Arte. Hoje sou Arteterapeuta.


A arte diz o indizível: exprime o inexprimível, traduz o intraduzível.” Leonardo da Vinci


Em 1999, inicio um projeto que intitulei Acompanhamento Artístico. É um trabalho bem individualizado, personalizado, realizado em domicílio. Uma intersecção entre a arte, a educação e a arteterapia. Proponho a montagem de um canto de arte na casa do paciente e, por meio de atividades artísticas como pintura, desenho, colagem, e o contato com diversas técnicas, são oferecidas oportunidades para a livre expressão de alegrias, medos, e angústias do ser e existir. Tudo começa com uma entrevista prévia em que recolho dados para fazer um planejamento de acordo com as necessidades e desejos de cada um. Faço uma pequena lista de materiais a serem comprados, passeios em exposições e centros culturais são realizados para enriquecer o processo e expandir repertório. Assim constrói-se um caminho rico e prazeroso de autoconhecimento e reequilíbrio interno. Nada mais é do que um ateliê terapêutico domiciliar, com pré-adolescentes, adolescentes e adultos.


Por um tempo tive que parar de atender por questões de doenças graves na família. Me dediquei à descoberta do meu lado artista. Trabalhei 12 anos em ateliê próprio, desenhando e desenvolvendo joias artísticas. Tive essa necessidade pois trabalho com a expressão de outras pessoas, necessitava mergulhar na minha própria expressão.


Em 2018, ao acabar um atendimento de acompanhamento terapêutico, recebo uma mensagem no celular, um convite. Era para conhecer a ONG Espaço Ser Casa Matheus Campos e, se possível, montar um ateliê terapêutico lá. A mensagem era da querida Tania Iorillo, mãe do Matheus Campos, que morreu por suicídio aos 14 anos, um ano antes. Fui conhecê-la pessoalmente, assim como o espaço da ONG. Depois de algumas conversas, topei o desafio. Me comprometi a montar um espaço de arteterapia no Espaço Ser. Trabalhamos em equipe multidisciplinar, por exemplo: equipe de saúde mental, yoga, arteterapia, musicoterapia, e faciaterapia, com crianças desde 8 anos de idade até pouco mais de 40 anos, com transtorno de ansiedade, depressão profunda, transtorno de personalidade borderline, em geral, com ideação suicida. Sou responsável por um grupo heterogêneo dos 17 aos 30 anos. Meu trabalho com esse grupo consiste em acolhê-los, entender a dor existencial que vivem, dar oportunidade de ressignificar crenças e sua própria história, além de poderem se reconhecer como alguém expressivo, restabelecer a autoestima e ser farol na vida deles, através dos encontros e propostas de atividades expressivas de Arteterapia. Muitas vezes levo poesias (Cora Coralina, Cecília Meireles etc.), vídeos, músicas, obras de arte de alguns artistas para serem disparadores de temáticas construtivas que os levem à reflexão.


A expressão é livre e respeitosamente valorizada por todos. Os trabalhos são reveladores, mostram o que há no interior de cada um, brotam como expressão de sentimentos e sensações. Muito gratificante e enriquecedor esse trabalho, tanto profissionalmente bem como para minha pessoa. Agradeço muito pelo convite da Tania. Mudou bastante minha vida, esse trabalho.

www.espacoser.org.br


Além desses exemplos, atualmente estou envolvida no projeto ETA! Escuta Terapêutica e Artística nas empresas. Sou cofundadora junto à minha sócia Gabriela Garcia, psicanalista. Proposta de arteterapia e psicanálise dentro das empresas, para funcionários. Algo totalmente inovador.


Aqui dei três exemplos de como o ateliê terapêutico é flexível, e se encaixa nas mais diversas realidades e públicos. A arte é democrática, e acessível dentro do enquadre arteterapeutico.