• Luna Nakano

Muito prazer, cadeira.

Diante de tantas incertezas sobre diagnósticos e possíveis tratamentos para o que causou minha paraparesia ¹, um fato é incontestável: vou ficar em uma cadeira de rodas para o resto da minha vida.



Antes de começar a explorar a vida sobre rodas, creio que seja válido abordar o que se passou antes de me tornar cadeirante. Como é uma história de pelo menos dez anos, não entrarei em detalhes, talvez fique para um próximo momento. Então, comecemos.



Depois de parir meu filho, que hoje está com 13 anos, comecei a ter problemas de mobilidade. Claro que em um primeiro momento não percebi esses eventos como um sintoma de algo mais grave, a rotina, o sedentarismo, e até mesmo médicos, fizeram com que eu pensasse que não havia nada de errado. Como sempre fui desastrada, por natureza, tropeçar e me desequilibrar uma vez ou outra era muito corriqueiro. “Isso é falta de exercícios!” - Ouvi isso muitas vezes do meu pai, “você precisa andar mais!” - outra frase muito dita por ele. O fato é que, com o passar dos anos, andar foi se tornando uma atividade cada vez mais cansativa e difícil, as pernas passaram a não obedecer, só de olhar as escadas da faculdade pensava em desistir várias vezes, emagreci, mas eram os músculos dizendo adeus.



Aos poucos passei a me isolar, recusei muitos convites para sair porque não me agradava a ideia de ter que pedir ajuda para nada, nem muito menos usar bengalas, andadores e muletas, “isso é coisa de velho, de gente doente”, pensava. No final de 2017 aconteceu o que eu mais temia, e ao mesmo tempo já esperava: não consegui levantar da cama, as pernas não suportavam meu próprio peso, por fim, ela chegou, a cadeira de rodas.



Exames, consultas, acupuntura, fisioterapia… passei por tudo, o diagnóstico ainda não pode ser concluído com precisão, suspeita-se de duas doenças que citarei em outro momento, quando tiver certeza. Só quero deixar um alerta neste parágrafo: não subestimem o que seu corpo tem a dizer, se suspeitarem de algo, procurem um médico, sem pânico, é que algumas doenças são silenciosas, mas, se diagnosticadas no início, podem ser tratadas e não causar danos maiores, ou nenhum dano.



Voltando à minha amiga cadeira de rodas, sim, passei a tê-la como companheira, afinal, agora ela é parte do meu corpo. Aceitar isso foi um processo doloroso e demorado, o luto de perder a mobilidade das pernas teve que passar, antes que eu pudesse me enxergar inteira sobre ela. Vários hábitos, tarefas, o ambiente ao meu redor, tiveram que mudar. Uma rampa aqui, uma barra de apoio ali, ainda bem que não desisti da faculdade de arquitetura, o conhecimento todo é válido, principalmente no momento de exigir o direito de ir e vir das pessoas com deficiência. Tive que aprender a me vestir, a tomar banho sentada, a pedir ajuda. Apesar de toda a dificuldade, tenho muitos privilégios, sou grata a eles e hoje posso dizer à minha cadeira Frida (dei esse nome à cadeira motorizada, que consegui pelo SUS): muito prazer, Luna.


1- A paraparesia corresponde a uma incapacidade parcial de movimentar os membros inferiores cujos sintomas podem aparecer a qualquer momento da vida, pois a doença pode ser hereditária ou causada por um vírus.

(fonte: https://www.tuasaude.com/paraparesia/)