• Larissa Queiroz

A maternidade não é (só) amor, ela é política

Vivenciando uma gestação pela segunda vez, o sentimento forte de amor e acolhimento está muito presente nos meus dias. Perto do Dia das Mães e vendo tantas propagandas exaltando o amor materno incondicional, ele fica mais evidente. Contudo, quando me sento à mesa de trabalho e percebo o quanto tenho a organizar na minha vida para viver essa maternidade plena, percebo que o amor é uma fração quase que pequena frente a tantos desafios que essa posição de mulher-mãe nos impõe. E é por isso que a maternidade é um ato político, social e cultural, mais que um ato de amor puro e inato.


É possível traçar diversos “modelos” de maternidade ao longo dos séculos, desde a dedicação total ao lar e aos filhos até a década de 50, até o início do fortalecimento da revolução feminista a partir da década de 60, quando as mulheres puderam começar a estabelecer uma relação entre a vida profissional e a familiar. Ainda assim, até hoje, permanece uma idealização da “vida correta” da mulher que precisa dar muito mais atenção à vida doméstica do que à acadêmica e profissional, o que nos coloca num lugar claro de embate ao regime patriarcal ainda vigente. E não tem nada mais político do que ocupar um lugar de questionamento dentro da estrutura da sociedade, não é mesmo?


Neste modelo patriarcal que vigora, as mulheres-mães:

- demoram muito mais para ascender economicamente do que os homens ou as mulheres não mães

- têm o seu tempo demasiadamente reduzido para tarefas educacionais e culturais em detrimento do trabalho doméstico

- sofrem muito mais com a solidão de diferentes formas, seja pela sensação de não pertencimento aos espaços comuns, seja pela dificuldade em se relacionar amorosamente

- sofrem diversos tipos de abusos como violência obstétrica ou discriminação no trabalho

- são julgadas quando querem ficar em casa para cuidar dos filhos, da mesma forma que são julgadas quando querem trabalhar fora (pois é…)


Ignorar todas essas questões para achar que uma “mulher normal”, por natureza, deve ser e amar ser mãe, simplesmente por ser mulher, nos deixa sem legitimidade para lutar por condições sociais melhores para exercermos essa função e, esse sentimento marginal, é tudo o que a classe dominante patriarcal espera de nós.


E é por isso que eu me junto à outras mulheres-mães-feministas em prol de uma maternidade livre que questiona e coloca em xeque o que nos é oferecido hoje como uma vida materna ideal, seja ela a que nos mantém em casa e desvaloriza sumariamente os cuidados com os filhos ou àquela que nos força a sermos heroínas que dão conta de tudo, ignorando o nosso cansaço e a nossa condição humana.


Que o evento Dia das Mães seja para celebrarmos o amor materno, mas seja também mais um dia de luta e reivindicação de um lugar real e não subjugado para nós mães.