• Debora Mello

Maternar duas vezes

Será que estou pronta para ser mãe? É a pergunta que nos assombra a partir do momento em que descobrimos uma gravidez, seja a primeira, seja a terceira, não importa, o medo de reproduzir ou não reproduzir temáticas já lidas em livros, blogs, vídeos, aulas, nos faz ser assombrada a cada conversa com o coletivo de mães, numa sessão de psicoterapia ou a sós.

Quando a gente materna, automaticamente depositamos naquele ser humano expectativas. Expectativas em uma pessoa que nem sequer conhecemos e logo é uma utopia pensarmos que ele irá corresponder ao que desejamos, mas isso poderemos aprofundar num segundo momento.

O maternar veio ao meu encontro e o meu maior medo era vir gêmeos pela carga genética familiar. Os gêmeos não vieram, veio um menino, com os olhos tão pequenos que mal conseguia abrir, numa noite chuvosa, ao som de Sweet Child O’ Mine, momento majestoso, potente, transformador e de muito medo.

Lorenzo teve seu desenvolvimento como o previsto, andou, falou, olhou, até que um dia os olhares ficaram mais dispersos, a fala foi sumindo aos poucos e ouvimos as coisas mais absurdas. O pediatra dizia que menino realmente demorava para falar e até que uma viagem que eu e o meu marido fizemos poderia ter causado um trauma por ficarmos dez dias longe dele. Um dia a avó dele soube que algo estava fora do que é esperado: uma revista chegou na casa dela e era sobre autismo, tinha umas perguntas e tudo foi se encaixando no perfil atual do Lorenzo. Marcamos logo uma neurologista e o diagnóstico de autismo chegou. O sentimento do diagnóstico vem com uma carga de maternar novamente, a diferença é o tempo que tive para ler, estudar, entender, encontrar quem iria nos direcionar, ter medo e logo percebi que nenhum conteúdo que consumi durante a gravidez falava sobre essa possibilidade, a única coisa me lembro é o medo que nos colocam no primeiro ultrassom morfológico que é quando descobrimos a possibilidade de alguma síndrome.

Maternar pela segunda vez foi mais intenso, mais doído, mais difícil, com menos informação, mas também foi mais transformador. Ser mãe do Lorenzo me mostrou possibilidades que eu nunca sequer cogitei, me fez pensar além dos privilégios que vivia, das vezes que fui capacitista, de acolher mais, julgar menos, de ensinar, aprender e querer ouvir sobre quem está do outro lado.