• Bella Neto

Já Arrumou a Casa?

Hoje nossa conversa pode ser um tiquinho mais longa, um tanto bom de subjetividades e mais um bocado de reflexões necessárias para o atual momento de pandemia, mais para voltarmos a períodos anteriores a ela e assim imaginarmos novas possibilidades para as nossas vidas e as vidas além de nós mesmos.

Nossa existência é política e por muitos lugares isso já é consenso. Ser mulher é ser agente político e agente de resistência em meio a uma lógica estruturada e pautada pelo capitalismo que tem como pilar o patriarcado e o racismo. Mas se nossa existência como mulher é uma existência política, se por natureza somos seres políticos (já que o ser humano por essência é um ser de socialização) por que na política institucional é tão difícil ver mulheres? Você sabe me dizer em quantas mulheres você já votou na sua vida? Saberia dizer em quantas mulheres negras você já votou? E mulheres LBT ou com deficiência? Por que não estamos nesses lugares? Por que não ocupamos os parlamentos? Por que não somos reconhecidas como grandes lideranças?

Pensa um pouquinho só...

Chegou a alguma conclusão?

A resposta pode parecer simples e bem óbvia: vivemos numa estrutura machista que impede mulheres de estarem em determinados espaços. E a problemática disso vai além, é mais profundo do que respostas prontas como “a culpa é do machismo”, até porque o machismo também não é assim tão simplista. Existem ferramentas, tecnologias que vão se adequando a cada avanço de nós mulheres, é assim também com o racismo, com a LGBTfobia e o capacitismo.

Uma conversa bem íntima entre mim e todas as mulheres que lerem esse texto. Quantas vezes você levantou da sua cama e disse: “hoje começarei aquele texto, ou projeto, ou pintura, ou aquela coreografia, ou qualquer coisa que fazia sentido para você, mas começarei depois de arrumar a casa?” Arrumou a casa, depois tinha a louça, o almoço e no fim do dia estava cansada demais para dar o pontapé inicial naquele projeto. Ou quantas vezes pensou: “no fim de semana começarei a ler sobre astrofísica, ou política, ou mesmo sobre culinária africana”, mas aí tinha a roupa da semana toda pra lavar, as lições das crianças para corrigir e mais uma vez não pode começar uma atividade que lhe parecia interessante.

Temos também situações ainda mais complexas, analise: quantas vezes você deixou de estudar sobre botânica porque precisava fazer aquela depilação, ou precisava ir ao salão alisar seu cabelo, ou quando não sobrou uma grana para aquele disco que você queria tanto porque o valor da manicure subiu um pouco?

Se você pôde frequentar a faculdade, quantas professoras você teve com doutorado? Quantas autoras mulheres negras você leu? Quantas colegas trans você teve nessa época da vida? Teve alguma convivência com mulheres com algum tipo de deficiência? Quantas mulheres são especialistas no tema do seu TCC?

É, não estamos ocupando muitos lugares, estamos sempre adiando muito dos nossos planos por conta da louça, da unha, do preço, da roupa de cama que precisa passar, quantas de nós tiveram que escolher entre maternar ou estudar? E quantas não tiveram essa escolha e hoje não podem se sentar pra ler um livro, ou mesmo pra fazer a unha porque o filho chegou e não tem com quem contar, sem uma rede de apoio real.

Uma vez passei um batom rosa e fui trabalhar, um homem bem mais velho olhou pra mim e disse “ hoje você está querendo”, e apesar de já ter acesso a um debate feminista não soube responder, sabia que era errado o que ele tinha feito mas não fazia a menor ideia de como isso poderia ser errado, ele era super inteligente, por vezes engraçado, um pai incrível, cuidadoso, como eu poderia me atrever a ficar incomodada, nunca mais passei batom para trabalhar nesse local.

Um tipo de assédio muito sutil, por isso recorrente e que autoriza todos os outros tipos. E o assédio é uma das ferramentas do machismo para nos impedir de estar em diversos lugares. Outra ferramenta é nos impossibilitar de estudar diversos assuntos. Ainda, nos colocar no lugar de organizadoras das vidas ao nosso redor... além de machismo, é trabalho não remunerado que o capitalismo chama de amor, dedicação da mulher à sua família.

E mesmo quando avançamos, apesar de todas essas manobras do machismo, e conseguimos acessar esses lugares, não somos bem-vindas, não somos vistas como merecedoras de estarmos ali. “Ela deu pro chefe”. Se você ainda não ouviu isso e é mulher, você ainda ouvirá. Isso cabe para QUALQUER tipo de trabalho que você venha a ter, se chegar à algum lugar de liderança irá ouvir isso, o que também significa que sua vida sexual não é sua, já que, de alguma maneira, não pode escolher com quem transar.

E na política não se faz diferente, procure qualquer parlamentar eleita seja ela de direita, esquerda, centro, pouco importa, todas as suas falas serão questionadas, invalidadas, e muitos homens se sentirão tão à vontade em te assediar que farão isso em frente a todas as pessoas que ocuparem uma casa legislativa inclusive o presidente da câmara (como aconteceu com a deputada Isa Penna – PSOL, que teve seus seios apalpados pelo também deputado Fernando Cury -Cidadania).

Política institucional nunca foi um lugar onde mulheres fossem bem quistas, e está muito longe de ser um lugar seguro e sadio para nós. Por mais que estejamos em um momento de transformações, em que o debate feminista está inserido em diversos setores das nossas vidas, ainda somos socializadas em uma lógica opressora, submissa e que galga a manutenção da lógica capitalista. Por esse motivo desistimos de ler aquele livro, ver aquele filme, iniciar aquele projeto ou de terminar aquele outro, porque estamos sim inerentemente preocupadas com o cuidado e a reprodução social que, nessa lógica, é uma função destinada a nós mulheres. Quando a burlamos com muita luta, choro, suor e solidariedade entre nós nos espaços de poder, nunca os ocupamos como indivíduos, sempre somos vistas como mulheres. Não somos lideranças que fazem escolhas de acordo com a nossa posição, somos mulheres e se não fazemos as escolhas de acordo com o esperado pelo gênero isso obrigatoriamente será questionado, não somos indivíduos, somos o nosso gênero.

Questionar papel de gênero, questionar o próprio gênero é uma luta anticapitalista, por isso precisamos estar sempre atentas quando falamos sobre representatividade, a luta das mulheres passa sim por questionar o que é ser mulher, mas sem a reprodução rasa de que ser mulher é ser mãe, ser a cuidadora que faz tudo por amor, e tem por sua essência a submissão, organização e preservação da família patriarcal. Romper com essa lógica só será possível quando rompermos também a lógica opressora capitalista, não existe capitalismo sem racismo ou machismo.

Vamos refletir sobre as razões de não termos feito milhões de coisas, inclusive vamos questionar os motivos pelos quais não gostamos de certos temas, porque não entendemos nada sobre outros, nós mulheres temos uma responsabilidade com todas as outras que viram antes de nós, temos a responsabilidade de fazer com que nenhuma de nós se sinta mal por estar onde quer está, temos a responsabilidade de transformar todos os lugares em lugares possíveis para a nossa existência, sejam mulheres mães, mulheres negras, mulheres com deficiência, mulheres lésbicas, mulheres trans, temos a responsabilidade de transformar o mundo em um lugar seguro para todas nós porque se não for assim o mundo seguirá não sendo um lugar seguro para ninguém.


Sejamos Gentis e Tenhamos Coragem.