• Tinha que ser mulher

Impactos dos relacionamentos no empreendedorismo feminino

Texto por: Juliana Sardinha

Psicóloga e terapeuta

Encantada pela vida e pelo ser humano.

Criadora da Jornada Detox das Emoções e do Programa Gerânio, mentoria para mulheres



Quando me formei em psicologia (em 2005) eu via três caminhos no mercado de trabalho: entrar para alguma empresa, fazer concurso público ou ser autônoma atendendo no consultório. Apenas em 2017, após passar pela experiência de autônoma, da CLT e do serviço público é que comecei a vislumbrar a possibilidade de empreender.


Eu havia feito duas transições de carreira, da psicologia para a educação e depois, de volta da educação para a psicologia clínica. Neste segundo momento, mais madura e com outras aspirações, eu tinha duas certezas: dessa vez eu queria me sentir valorizada na profissão, mas a clínica não bastaria para isso.


O mestrado, a pós-graduação e a experiência com mediação em educação me apoiaram a desejar mais, e ao estudar marketing aplicado à psicologia (que é cheia de restrições do conselho profissional), vi que a interface entre educação e clínica seria um campo de expansão. A partir disso comecei a me ver empreendedora.


Nos cursos, mentorias e especialmente nos grupos de mulheres empreendedoras comecei a ouvir sobre os impactos dos relacionamentos nos empreendimentos e na autoestima de muitas mulheres.


Com frequência eu ouvia “meu marido não me apoia”, “ninguém me apoia”, “sou só eu para fazer tudo sozinha” e com a mesma frequência eu testemunhava as respostas de professoras e mentoras: “eu também tive que crescer meu negócio sozinha”, “não espere que ninguém apoie o seu sonho”, “o seu sonho é seu”.


Essas respostas carregam uma verdade dolorosa que ignora pontos fundamentais ao pensarmos no impacto da qualidade das relações na vida profissional da mulher: o machismo estrutural que leva muitas mulheres a serem as únicas ou principais responsáveis pelas tarefas do lar e cuidado com os filhos, e o reforço social de que as mulheres devem amparar os sonhos dos cônjuges em detrimento dos seus e a frequência de relacionamentos tóxicos e abusivos que pode ser vivida por qualquer mulher.


Segundo dados do Sebrae, embora as mulheres tenham nível de escolaridade superior aos homens, elas ganham em média 22% menos que os empresários que têm o mesmo tempo de empresa. Além disso, as mulheres têm mais dificuldades para obter créditos e linhas de financiamento (recebendo aproximadamente 13mil a menos de empréstimo do que os homens) e ainda pagam taxas de juros mais altas.


Com isso, vemos que focando apenas no empreendedorismo feminino, já é possível perceber que as mulheres têm mais desafios para conseguirem manter seus negócios e quando somamos às pressões familiares, especialmente dos cônjuges que se colocam contra a autonomia da mulher, este desafio se torna ainda maior.


Para falarmos sobre o impacto das relações, primeiro vale dizer que não são somente as relações afetivas que impactam ou podem impactar a vida profissional da mulher, críticas familiares e de amigos também têm um lugar nas queixas das mulheres, assim como não a falta de apoio traz consequências para além da vida profissional da mulher.


Vale lembrar que a sociedade patriarcal reforça o papel social da mulher vinculado aos cuidados com a família e com os filhos, bem como é normalizado que a mulher passe a nutrir os sonhos dos companheiros, ao invés dos próprios, após o casamento. Além disso, a ideia de amor romântico traz a noção de que após o casamento as duas pessoas virão “uma unidade”, o que fortalece ainda mais a ideia de que nutrir sonhos independentes do apoio do marido pareça algo errado e digno de culpa. Mas existem algumas peculiaridades - especificamente nos relacionamentos tóxicos e abusivos - que fazem com que a mulher tenha mais dificuldade de manter o sonho do próprio negócio.


As relações abusivas são marcadas pelo controle e diferença de poder entre as pessoas, acontece um ciclo e o escalonamento da violência, com o frequente isolamento social da vítima. Este ciclo inicia, em geral, com críticas leves aos costumes, vestimentas e outras relações da mulher. Família, amigas e colegas de trabalho passam a ser alvo do abusador que sempre busca “proteger” sua esposa de “relacionamentos ruins”. A violência psicológica é a tônica desses relacionamentos e, vale ressaltar, que grande parte dos abusos acontecem de forma sutil e muitas vezes imperceptível aos olhos de quem está de fora da relação. Não raro, os abusadores e tóxicos no casamento, são solícitos, amigáveis e apoiadores dos seus próprios amigos e familiares.


No relatório sobre Violência Doméstica e seu Impacto no Mercado de Trabalho e na Produtividade das Mulheres desenvolvido pelo Instituto Maria da Penha e um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará aponta que “as mulheres que declaram sofrer violência faltaram ao trabalho 18 dias, em média, como resultado do absenteísmo causado pela violência doméstica contra as mulheres nas capitais nordestinas. Além disso, a duração média no emprego para as que sofrem violência é 22% menor do que as que não vivem essas situações.



Se tomarmos essa informação como base e somarmos ao fato de que 3 em cada 5 mulheres viveu ou viverá uma relação abusiva em sua vida, vemos que não se trata de um caso isolado, ou dificuldade pessoal para lidar com este problema que, a meu ver é social e sistêmico por este motivo é fundamental que as mulheres tenham redes de apoio, não só para se cuidarem em termos emocionais, mas também para se apoiarem nos seus negócios.



O empreendedorismo, especialmente para as Microempreendedoras individuais, é um caminho inicialmente solitário, mas que pode ser mais colaborativo. Estar atenta ao medo da competição, confiar em outras mulheres e especialmente se permitir receber ajuda são aberturas fundamentais para a ruptura do isolamento. Neste caminho, autoconhecimento e o apoio psicológico podem trazer grandes viradas de chave ainda maiores para a sustentação do próprio negócio.



Com isso, vemos que, se o desejo por aprovação, pertencimento e sucesso pode estar presente em qualquer pessoa empreendedora, para as mulheres, devido aos reforçadores sociais e impacto e normalização da toxicidade nas relações este caminho pode ter mais desafios, porém, participar e cultivar redes de apoio, junto a outras empreendedoras pode ser o “chão” necessário para a mulher dar o passo de segurança necessário.