• Marina Zaneti

Homem branco de meia-idade

Certa vez ministrei uma aula sobre Identidades de Gênero para psiquiatras em formação. Expliquei a eles que a sexualidade de cada pessoa pertence a ela unicamente, e não ao olhar de quem a vê. Independentemente de como ela se veste, se apresenta ou com quem se relaciona afetiva ou sexualmente. Um homem branco de meia-idade se apresentou e fez uma pergunta: “então a professora está dizendo que tudo é possível?”.


“Homem branco de meia-idade”, diga-se “classe social de privilégio”. O termo se refere a pessoas que fazem parte do grupo político responsável pela detenção de poder, historicamente representados por homens brancos de origem europeia. Hoje, em nosso dia a dia, aos homens cisgêneros, heterossexuais e brancos.


Um conceito essencial para entender a sexualidade humana é “fluidez”. A fluidez é reflexo de mudanças que experimentamos ao longo da vida, desde experiências, até sentimentos, emoções e medos. Para exemplificar, alguém que nasce do sexo cromossômico masculino e se identifica com o gênero masculino será (naquele momento) cisgênero. Mas nada garante que se mantenha assim por toda a vida, já que pode aos poucos se deparar com uma mudança e passar a não se identificar mais dessa forma, sendo possível identificar-se como mulher ou não, inclusive pode não se identificar com gênero algum.


Assim como nos relacionamos conosco mesmos, também nos relacionamos com outros e com o mundo, sexual, afetiva ou fraternalmente. E a fluidez também cabe aí, e podemos (e devemos, na maioria das pessoas) experimentar mudanças no padrão de excitação sexual, na orientação sexual, nos amores, nas paixões, e (que bom!), nossa experiência de vida vai se enriquecendo de sentimentos com o passar dos anos.


Privilégio significa dinheiro? Status? Hierarquia? Sim. Mas também significa prisão. Na medida em que ele funciona até a segunda página, até que o preconceito atinja a quem se ama, até que esbarra em questões éticas, até que a fluidez bata à porta, até que o padrão não caiba mais. Se o padrão não cabe mais para ninguém, por que ainda existe?


Quebrar padrões não é simples e nem fácil. Somos resultado de uma história que massacra, pune, mata, estigmatiza e invisibiliza. Por isso essa luta é diária e repetitiva, como água que aos poucos e ao longo de séculos vai mudando o formato das pedras. Milímetro a milímetro.


Lembra da pergunta que o “homem branco de meia-idade” me fez? Para ele, respondi: “sim, por que não seria?”.