• Ivana Brazil

Filhos de ETs. Oi?

Inacreditável que em pleno século XXI eu tenha que ler esse tipo de enunciado nos jornais. Cada vez tenho mais certeza que uma grande parte da população está vivendo submerso em uma bolha estrutural onde insistem em dizer que não são preconceituosos quando eles se defendem dizendo que têm amigos ou conhecem pessoas com deficiência, pessoas gays, pessoas pretas, pessoas trans. No caso, o enunciado se refere ao Delegado/professor que é condenado por discriminação por dizer que pessoas com Síndrome de Down são filhos de ETs. Mas se defende dizendo que jamais teria a intenção de ofender, ATÉ porque ele tem alunos com Síndrome de Down. Ele fala que é uma brincadeira. Claro, sempre é uma brincadeira. Todo mundo já ouviu esse tipo de justificativa.

Eu sei que o caminho para a desconstrução do preconceito é longo, mas precisa ser consciente. Esse tipo de atitude, como a do delegado, é um desserviço para a sociedade que acaba acreditando nesse tipo de comportamento e o repete por não ter o hábito de pesquisar e ir atrás de informação. Apenas replica e acha normal. E assim se alimenta uma segregação silenciosa revestida de piada, de frescuras e de muitos “mimimis”. Não se discute com clareza e consistência. Tudo vira briga e guerra.

A fala do delegado/professor, que pode ser assistida por vídeo no site de notícias, me pareceu irônica e de muito mal gosto. Desnecessária e sem fundamento científico, mesmo ele querendo afirmar que pessoas com Síndrome de Down são frutos de macacas com ETs. "Esses são ETs que vieram do espaço, que tiveram relações com mulheres aqui na terra, que na época eram macacas, conhecidas como australopithecus e eles nasceram. Esses filhos dos ETs que vêm até hoje(...) aí nasceu (sic) os ETs que o pessoal chama de Síndrome de Down, mas eles são ETs."* Bizzarro!!! Pra não ser indelicada.

A matéria aponta que a justiça manterá a condenação do delegado. A defesa irá recorrer “além de delegado, é professor, nunca destratou nenhum aluno que tivesse Síndrome de Down e vamos recorrer. Ele está hoje aposentado e nessa época estava passando por momentos conturbados de saúde.” A fala do advogado de defesa que justifica também um desequilíbrio na saúde de seu cliente, o delegado/professor. Outro tipo de ação para justificar atitudes discriminatórias.

Minha reflexão aqui é: estamos nos descontruindo para tornar a sociedade um lugar plural e de respeito às diversidades. Podemos errar? Com certeza. Porém, precisamos nos retratar desse erro com verdade e entendendo o que de fato acontece para que haja mudança. Agora querer se retratar para não perder benefícios é querer continuar submerso em sua bolha aconchegante e confortável que te faz enxergar o que lhe convém. Bora ver além da bolha?


Fontes