• Ivana Brazil

Festinha

A Cintia me convida a enxergar a vida de uma maneira tão genuína, que muitas vezes, nas minhas reflexões, fico pensando o porquê de eu complicar tanto. É tão mais simples como ela lida com as coisas que eu fico perdida com tamanha tranquilidade.

Certa vez, eu estava visitando os meus pais e a Cintia tinha uma festinha pra ir. Fui acompanhá-la. Era uma festa para pessoas com Síndrome de Down, com luzes pisca-pisca, Dj, muito refrigerante e muita animação.

Que festa, gente!! Foi muito significativo para mim estar naquele lugar. Por vezes que me sentei para descansar, observei uma leveza pairando no ar. Porque eu tinha a sensação de que eles se divertiam tanto que não estavam preocupados se alguém ia rir, falar do jeito de dançar ou de como o outro estava vestido. Estava todo mundo de boa, curtindo, dançando e se paquerando. Eu digo isso, porque às vezes que eu estive em festas eu me preocupei muito com que os outros poderiam falar do meu jeito de dançar ou vestir. E ali, naquele momento, olhando aquele cenário, eu fiz essa reflexão e tive a sensação de como é tudo mais simples e o quanto eu complico.

Essas Festas organizadas para pessoas com Síndrome de Down, geralmente são acompanhadas dos pais ou parentes das pessoas com Down e em alguns eventos há a presença de psicólogos para auxiliar no ambiente social. Por mais autonomia que a pessoa com Síndrome de Down tenha, ela não é cem por cento independente, por isso há necessidade de ter um responsável sempre junto. Tanto que a grande preocupação de muitos pais em relação aos filhos com síndrome de Down ou outra deficiência intelectual, é como eles ficarão quando os pais morrem. O receio de quem vai cuidar e auxiliar do filho que necessita atenção.

Na festa a interação é total com todos. Aquele lugar que a gente imagina estar, num futuro próximo, onde não há preconceitos, onde a inclusão não é a pauta, mas sim a diversão, o desprendimento, a alegria, o abraço carinhoso, a risada descontraída, a troca de olhares, os passinhos ritmados e a rebolada até o chão. Não há julgamentos.

Eu lembro que cheguei em casa com meu coração transbordando em alegria de tão contagiante que foi estar naquele lugar com aquelas pessoas vivenciando aquele momento. Eu não gosto de romantizar e falar em pureza relacionada às pessoas com Síndrome de Down, mas foi essa a energia que me tocou. Foi uma sensação de que tudo ia ficar bem, mesmo com os grandes desafios daquele ano. De que sim, eu posso acreditar na humanidade. De que essa pureza pode não estar relacionada ou rotulada à pessoa com Síndrome de Down, até porque somos indivíduos únicos, mas acredito que naquela festa estavam todos uníssonos na pureza. A pureza do amor e da alegria. Foi contagiante!