• Larissa Queiroz

Eu já fui a militante chata

Lembro como se fosse ontem. Era 2012, eu tinha 24 anos e descobri que estava grávida. No auge da minha juventude, fazia festa quase todos os dias. Tinha acabado de alugar um apartamento, estava num trabalho que eu adorava e que me pagava super bem. Tomava anticoncepcional e ele não me livrou desse acontecimento. Você sabia que 1 em cada 100 mulheres podem engravidar tomando pílula corretamente? E eles dizem que só engravida quem quer…, mas isso é assunto para outro texto.


Voltando à minha gravidez surpresa, depois de entender, acolher e decidir que a partir daquele momento eu seria mãe, eu me joguei no mar bravo dos assuntos maternos. Descobri o tal Parto Humanizado e aí foi derradeira a minha conversão. Eu lia todos os blogs sobre o assunto, todos os livros, conversava com todas as mulheres que já tinham tido algum tipo de experiência com o parto natural, ia em todos os grupos de apoio. Fiquei super expert no assunto e até doula me formei depois do nascimento do meu filho. Mas além de expert, eu fiquei chata.


Se eu ouvia alguém falar de parto, já levantava o meu dedinho e seguia num discurso sobre o que era ou não permitido, os dados de cesariana no Brasil, a máfia dos planos de saúde, o horror da chupeta e do leite artificial. Briguei. Parei de falar com outras mulheres. Eu era, oficialmente, uma militante chata.


O tempo foi passando, eu continuei estudando, mas parei para escutar mais. Aliás, essa é uma dádiva que a gente só ganha com o tempo: aprender a falar menos e a ouvir mais. Nesse exercício de escuta, eu fui aprendendo que um parto de respeito no Brasil não é uma mera escolha, é um privilégio. Aprendi que a informação não chega da mesma forma para todas nós. Que a desconstrução do modelo opressor e patriarcal que determina o uso e a função do corpo da mulher não é imediata. O processo no qual este modelo foi forjado é perverso e perfeito. Exige cuidado, empatia e muito acolhimento no seu tratar.


Talvez, o mais importante nesse movimento, foi entender o significado da palavra “escolha” e saber que às vezes ela existe, de fato, às vezes não. Há mulheres que não podem acessar informações suficientes sobre processos importantes de suas próprias vidas, seus corpos e o nascimento dos seus filhos, por isso não podem realmente escolher o que pode ou não ser melhor para ela. Há mulheres que querem escolher o que, cientificamente, pode ser um equívoco e um prejuízo para ela mesma, mas ela acredita e confia que aquilo é o melhor. E quem tem alguma coisa a ver com isso? Com certeza, eu não mais. Nós mulheres já passamos tanto tempo nos justificando sobre quem somos e o que queremos, é tanta luta todo dia, que eu não quero o status de juíza das escolhas de minhas irmãs. Deixa esse papel para a sociedade na qual vivemos que o realiza muito bem.


Mas, então, acabou a militância? A luta por um parto de respeito para mulheres e crianças? Não… jamais… Como mãe, como doula, como mulher, estarei sempre pronta para informar e incentivar as que querem descortinar os véus e desatar os nós que, por vezes, nos impedem de fazer as nossas reais escolhas. Mas faço isso ouvindo e compreendendo, muito mais do que exigindo.