• Marin Blanco

Eu? Autista?

Como primeiro texto de tema livre, decidi trazer hoje um pouco sobre mim. Afinal, vocês irão acompanhar mensalmente os meus textos a partir de agora e acredito que, para entendê-los melhor, vocês precisarão me conhecer primeiro. Devo admitir que não foi fácil escrever sobre mim, já que sempre achei estranha a sensação. Mas aqui está, espero que gostem.



Sou Marin, estudante de nível superior, tenho 20 anos e sou agênero. Recebi o diagnóstico de autismo em dezembro de 2019 quando tinha 18 anos (quase 19), cerca de um ano e seis meses após iniciar o tratamento pra depressão, ansiedade e humor instável. Eu já me sentia bem, mas sabia que havia algo a mais de diferente em mim que os outros não tinham, o diagnóstico explicou muita coisa que nunca entendi antes. E continuo aprendendo com ele.



Não posso dizer que esse processo foi simples, muito menos fácil. Busquei a vida toda ajuda em médicos, que diziam que eu era "normal", que aquilo era "da idade" ou que eu era "inteligente"/"tirava nota" então eu estava bem. Nunca recebi um encaminhamento pra psicólogo, não por falta de insistência minha ou da minha mãe. O mesmo com professores, psicopedagogos etc. Foi um longo processo, entrei em depressão severa no caminho, desenvolvi fobia social, e por aí vai. Mas nunca suspeitei de autismo, já que não o conhecia de fato.



O diagnóstico explicou o fato de eu me sentir uma pessoa extremamente ansiosa desde criança. Explicou o fato de eu sentir que relações humanas, até as mais simples, eram complicadas e me drenavam a energia. Explicou minhas crises, que antes eu acreditava serem ansiosas e depressivas somente. E muito mais. Mais pra frente vou falar mais disso pra vocês.



TDAH, que também é uma deficiência, apesar da legislação brasileira estar atrasada neste quesito e ainda não o incluir, eu sempre soube que tinha. Não era difícil de perceber. Bipolaridade eu também consegui supor sem muita dificuldade. Agora, o autismo que a gente ouve falar por aí é um tanto quanto mítico, distorcido e impede que enxerguemos o real autismo. Logo percebi isso, é difícil encontrar material acadêmico que não seja estigmatizado. Foi então que decidi começar a falar de autismo, o que eu mais queria (e ainda quero) é ajudar outros autistas a se descobrirem.



O autismo é uma deficiência, ou seja, somos diferentes daqueles sem deficiência e, quando vivemos em sociedade, surgem barreiras na nossa vivência em decorrência dos nossos traços. O autismo não é o responsável por isso, e sim a sociedade, o capacitismo e a falta de acessibilidade. É importante que qualquer Pessoa Com Deficiência aprenda que ela não tem culpa pela forma que é tratada, que merece ser respeitada e tem direitos tanto quanto qualquer um. Descobrir isso permite que nós, Pessoas com Deficiência, aprendamos a respeitar nossas próprias limitações, a diferenciar o que não é limitante e como respeitar a nós mesmos. É um processo de autodescoberta que nos liberta.



Aqui na coluna HiperFocando vou trazer informações a respeito de autismo, deficiência, minha vivência, reflexões e debates sobre questões sociais e interseccionalidade. Vejo vocês em breve.