• Bárbara Barbosa

Esse tal de racismo...

Se você, leitor, pensou: “ai, lá vem coisa tensa/chata...”, sente-se aí e vamos conversar. Diálogo é nossa premissa.

Gostaria de jogar na nossa roda o tema que será a base das minhas intervenções aqui e que tem sido uma fonte de estudos mais aprofundados nos últimos tempos: o racismo estrutural.


Não vou abordar em profundidade a história da formação do mundo, mas quero falar resumidamente de Brasil. Aqui foram mais de 300 anos de escravização permitidos pelo governo em forma de políticas e leis. A mão de obra escravizada era, além de sinônimo de status e poder, a mais comum. Consegue mensurar o que é ter o poder, por lei, de comprar, vender, doar ou mesmo matar uma PESSOA?! Em resumo: desde a invasão e sequestros no continente africano, os povos originários não eram nem considerados gente. Ao chegarem por aqui, indígenas e pretos eram vistos como selvagens e sem alma pelos europeus. Houve um apagamento da história desses reféns. Mudaram seus nomes, suas crenças, separaram suas famílias, mataram muitos de seus descendentes e ancestrais.


E o que isso tem a ver com racismo estrutural, Preta?

Tudo! O racismo é a base da nossa sociedade. Como disse Silvio Almeida: “o racismo é sempre estrutural, ou seja, ele é um elemento que integra a organização econômica e política da sociedade”, e completa: “O racismo fornece o sentido, a lógica e a tecnologia para a reprodução das formas de desigualdade e violência que moldam a vida social contemporânea”.


O que isso quer dizer?

Parafraseando uma fala da Prof. Djamila Ribeiro, quer dizer que, na sociedade brasileira, o racismo é estrutural porque nos constituímos socialmente através do racismo (a escravização de pretos e indígenas foi nossa base econômica), e estruturante porque essas estruturas se mantêm até hoje.


Como assim? E a princesa Isabel, gente?

O Brasil, foi um dos últimos países a “abolir” a escravização por pressão política, mas a estrutura escravocrata se mantém.

Exemplificando (e aqui vou citar um dos possíveis exemplos): no Brasil, é muito comum a contratação de trabalhadoras domésticas (diaristas, babás, pessoas que limpam e organizam a casa e cuidam dos filhos - de pessoas majoritariamente brancas) -, não é? Isso é herança da época da escravização, já que os pretos escravizados eram divididos em homens, mulheres e crianças (sim! As crianças trabalhavam!), da casa (domésticos/domesticados/não-selvagem) e da lavoura. Como contei pra vocês no meu texto anterior, mulheres negras estão na base da pirâmide dos salários e isso é um indicativo bem grande para montarmos um paralelo entre a situação das trabalhadoras domésticas no Brasil atualmente, por exemplo, e as mulheres escravizadas. A situação nos empregos mudou? E a vida dessas mulheres? Podemos lembrar que a regulamentação dessas trabalhadoras só aconteceu efetivamente em 2015.


Outro exemplo é que sempre que brasileiros se mudam para o exterior, independentemente do país, reclamam de quão caro e difícil é manter esse tipo de serviço, mesmo que eventualmente, em suas casas. Ou ainda, que não é comum as pessoas contratarem outras para trabalhar em suas casas limpando sua sujeira ou cuidando de seus filhos. “Ahh, mas em outros países contratam prestadores de serviço, sim”. Contratam mesmo. Mas observe quem são esses contratantes e como eles são classificados economicamente naquele país. Voltemos à nossa realidade. Analise bem: quem são e qual a cor desses trabalhadores hoje aqui no Brasil?


Em pesquisa divulgada no ano passado, o DIEESE – Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos – apresentou dados apontando que o Brasil tem o maior contingente de trabalhadores domésticos do mundo (!!!), sendo cerca de 6 milhões. 92,7% deles são mulheres e, desse percentual, 65% são mulheres negras. E se você perguntar às mulheres pretas que conhece qual era a profissão de suas mães, avós, bisavós... a maioria vai trazer como herança o trabalho doméstico, que nem sempre era remunerado.


Minha mãe, mulher preta, natural de Minas Gerais – estado que sempre tem histórias de racismo bizarras para contar em pleno século 21, como foi o caso da Madalena Gordiano divulgado ano passado - trabalhou como empregada praticamente a vida toda. Quando não trabalhava na casa das pessoas brancas, trabalhava em suas lavouras de cana. Aos 8 anos ela começou a trabalhar numa casa cuja família “a adotou” para ser babá dos filhos pequenos que tinham entre 7 e 10 anos, ou seja, alguns dos filhos eram mais velhos que a minha mãe. E nem estou dando luz à informação de que, aos 8 anos, o ser humano deve estar na escola e ter o direito de ser criança. Essa é outra discussão, mas anote aí para começarmos a tecer essa colcha de retalhos. Ainda que minha mãe fosse considerada “praticamente da família”, não podia usar o banheiro de dentro da casa, nem ocupar um dos quartos que não fosse o de costura, cheio de bagunças e com uma cama de solteiro com colchão usado por vários anos em vários quartos antes de chegar até ali.


Aliás, até hoje as pessoas separam o banheiro, o “quartinho”, o elevador, muitos ainda separam os talheres, os copos, as toalhas etc., que suas empregadas podem ou não usar. Isso quando podem usar algum objeto da casa. Eu disse ATÉ HOJE. Se no seu lar você faz isso ou se a estrutura da sua casa permite que a pessoa que trabalha para você não possa ocupar os espaços comuns, agora é a hora de repensar o que te motiva a manter esse tipo de tratamento diferenciado e esse tipo de estrutura.


E, voltando à questão de brasileiros no exterior, muitos brasileiros ricos se mudaram para Portugal e estão requisitando (e conseguindo!) mudanças no mercado imobiliário por lá. Eles exigem que, nas novas estruturas construtivas dos prédios, sejam incluídos, além de varanda gourmet e garagem, entrada e elevadores de serviço... Para os portugueses, isso causa certa estranheza e até incompreensão, mas estão atendendo às demandas dos novos clientes, claro...


Ainda que a nossa sociedade esteja em evolução, que pessoas pretas estejam conquistando mais espaços com relevância econômica, há um longo caminho a ser percorrido. Parafraseando Sueli Carneiro, entendemos que, no Brasil, não há possibilidade de discutir classe social sem antes acabar com a estrutura racista.


Deixo vocês com essas reflexões e volto em breve para continuarmos a construir esse entendimento e desconstruir esses pensamentos.



Recomendo assistir ao vídeo do Prof. Dr. Silvio Almeida - O que é racismo estrutural



Referências:

ALMEIDA, Silvio. Racismo Estrutural. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.

Pesquisa DIEESE: https://www.dieese.org.br/estudosepesquisas/2020/estPesq96covidTrabalhoDomestico/index.html?page=8

Caso Madalena Giordano: https://brasil.elpais.com/internacional/2021-01-14/madalena-escrava-desde-os-oito-anos-expoe-caso-extremo-de-racismo-no-brasil-do-seculo-xxi.html

Brasileiros em Portugal: https://revistaforum.com.br/noticias/brasileiros-ricos-em-portugal-exigem-apartamentos-com-dependencias-de-empregados/