• Luna Nakano

Escadas

Com certeza, em se tratando de arquitetura, uma escada bonita e bem calculada pode se tornar a obra de arte de uma construção. Nós, arquitetos, gostamos da beleza estética das escadas. Menciono nós, porque antes de me tornar cadeirante já fui adepta de projetar escadas bem-feitas e esteticamente belas. Com a progressão da doença e a perda gradativa da mobilidade, cada degrau que eu tinha que transpor se tornava um grande obstáculo, até que, nos dias de hoje, posso dizer que são muros, barreiras que segregam pessoas.


Escadas são espaços de circulação vertical, ocupam menos espaço que uma rampa e custam menos do que a instalação de um elevador. Em residências assobradadas é a solução ideal. Mas em espaços públicos, estabelecimentos comerciais e que prestam serviços, usar escadas para circular entre os diferentes níveis do espaço já deveria ter “saído de moda”. Primeiro, porque existem leis e normas de acessibilidade e segundo, porque o tempo em que as pessoas com deficiência eram escondidas do restante da sociedade já acabou há tempos.


Ter espaços de livre circulação, onde qualquer um possa transitar de um lado a outro, com autonomia. Seria muito utópico? Quando estava cursando a faculdade de arquitetura parecia possível, eu já tinha perdido mobilidade e era uma das minhas preocupações ao desenvolver um projeto. Do lado de fora é completamente o oposto, nos deparamos com um “jeitinho” para aprovar um projeto, ou alguma fala capacitista do tipo: “ah, mas eu não tenho clientes com deficiência”.


A arquitetura perde o encanto no momento em que ela deixa de ser feita para as pessoas. Aos colegas de profissão, quero propor reflexões, a maneira como conduzimos nossos projetos precisa pensar além da estética solicitada pelos clientes, afinal qualquer um está apto a se tornar uma pessoa com deficiência permanente ou temporariamente, todos vão envelhecer, podendo ou não precisar de equipamentos adaptados. Aos proprietários de espaços destinados ao público gostaria de pedir mais empatia.


Não é a intenção desse texto ser sensacionalista, quero expor aqui um ponto de vista diferente, do lugar de fala do qual eu pertenço, e caso você, PSD, queira vivenciar como é subir uma escada na cadeira de rodas, me disponibilizo a te emprestar a minha.