• Luna Nakano

Deficiência em família

Desde que comecei a falar sobre minhas vivências enquanto pessoa com deficiência nas redes sociais, digo que não convivi com PcD na infância. Porém, refletindo aqui, eu sempre tive à minha volta, inclusive bem próximo a mim, pessoas com deficiência. O capacitismo é tão enraizado que invisibiliza algumas características, tanto que existem várias pessoas famosas e de importância histórica, que são PcD, e que têm suas deficiências apagadas, talvez para não mostrar o que é “feio” aos olhos da sociedade que já determinou o que é padrão. A mais conhecida é a artista plástica Frida Kahlo, que tem o seu rosto estampado em vários lugares, mas sua deficiência não é mencionada nas lutas sociais. E por aí vai, temos desde faraós a cantores contemporâneos, que ninguém imagina que são pessoas com deficiência. Voltando ao meu núcleo familiar, e às minhas reflexões, existiram duas mulheres, que foram essenciais na minha formação como ser humano, e que eram mulheres com deficiência, mas o assunto deficiência nunca foi sequer mencionado em nenhuma conversa de família: minha avó paterna e minha mãe. A grande ficha caiu aqui, e me esmagou /metáfora/. Minha avó paterna (bachan), em um dos partos, teve uma complicação e quase teve que amputar um dos pés, um médico conseguiu salvar o membro, mas não evitou as sequelas, o pé da bachan ficou sem movimentos, a articulação do tornozelo enrijeceu - não sei o nome técnico para isso - e ela andava com dificuldades, chegando até a cair na rua devido à mobilidade reduzida. Minha mãe teve perda auditiva gradativa, nunca chegou a fazer uma audiometria, para que pudéssemos perceber o grau de surdez, hoje eu sei que surdo não é só aquele que não ouve nada, lembro de sempre ter que falar com ela frente a frente e praticamente gritando, e mesmo assim, ainda corria o risco de ela não entender o que eu estava dizendo. Hoje, eu penso que a qualidade de vida delas teria sido melhor se nós tivéssemos tratado as deficiências com mais carinho, proporcionando acessibilidade, principalmente atitudinal. Essas características não deveriam ter sido ignoradas e invisibilizadas. Ao mesmo tempo em que bate aquela pontinha de culpa, sinto que também esse fato foi essencial para que eu tivesse mais empatia e que percebesse as PcD com mais naturalidade. Não dá para voltar no tempo, também não posso pedir perdão, porque as duas já partiram. Mas é possível tentar conscientizar as pessoas, de dentro e de fora do meu círculo familiar, que deficiências são características humanas e não devem ser ignoradas, e que deficiência não se resume a cadeira de rodas - que é o meu caso - existe diversidade, e que muitas vezes a deficiência não é tão perceptível, mas ela não deixa de existir e isso não torna uma pessoa menos deficiente que a outra.