• Bárbara Barbosa

Cansada/Exausta

Como diria o mestre Cassiano, “mais um ano se passou”...

Há alguns dias eu fiz aniversário, 35 anos, e não me senti tão celebrativa desta vez. Motivos temos muitos, todos nós. Mas, especialmente esse ano, pra mim, ficou como uma grande lacuna. Eu me dei conta que de fato não vivi. Estive e estou em pausa. Fiz tudo o que tinha de fazer. Do jeito que deu. Nem sempre o jeito que deu foi o esperado, mas foi o meu possível. Lidei com isso, mas não da melhor maneira porque não sou boa em lidar com frustrações e ser uma pessoa preta é lidar com pequenas e grandes frustrações a todo tempo. Repito: sou péssima para lidar com frustrações.


Ser preto no Brasil em 2021 é não saber se volta pra casa quando sai porque somos alvos contínuos, é uma pessoa te dizer na cara que você vai assaltá-la por vocês estarem fazendo o mesmo caminho, é ter sempre que provar por A + B que você está falando a verdade, é ter sua voz sutilmente silenciada, a partir do momento em que você afirma um fato e o outro só acredita em você se tiver a confirmação/anuência de outra pessoa (99% das vezes branca), é você se sentir cansada e não poder descansar porque o sistema, o patriarcado, a sociedade em si é um grande moedor de carne humana e o objetivo é fazer hambúrguer de gente, é você se dar conta de que abismos sociais existem em maioria esmagadora pro seu povo e ver isso acontecer com um familiar…


Olha, são muitas coisas!

Se 2020 cansou, 2021 exauriu energias. Inclusive as minhas, que tendo a ser muito positiva, estou sempre pensando que vai ficar tudo bem. Acho que, por essa minha característica positivona, as pessoas costumam jogar em mim seus “lixos” (metáfora). Sou eleita o ouvido amigo da reclamação, dos lamentos e tem dias que eu estou com a energia lá pra cima, mas sempre vem alguma coisa, uma notícia qualquer, alguém emputecido com o governo e “pá”, foi-se minha energia alta. A isso eu chamei de tesoura da alegria. 2021 foi essa grande tesoura. Pessoas em 2021 também.


Me dei conta também que passei por um luto no ano passado, mas não o vivi. Perdi uma pessoa querida da família de infarto (e vi de perto que, viver na periferia e ser preto, te faz morrer de tiro ou de falta de assistência médica decente) e não consegui sentir tudo o que se sente quando se perde alguém amado porque estava ali ouvindo constantemente o lamento/reclamações/preocupações dos demais, ficar preocupada com a pandemia, preocupada se não ia me contaminar e ser a próxima a morrer, se não ia me contaminar, contaminar alguém que amo e essa pessoa vir a morrer. Tudo isso me fez não perceber/sentir o luto. Não o deixar entrar. E vez ou outra me vejo extremamente triste sentindo uns pedacinhos dessa dor. Acho que ela só vai virar saudade quando desaguar toda a dor.


Enfim, acho que esse último texto ficou tal qual está minha energia mesmo depois de ter feito aniversário, festa essa que eu gostava tanto de celebrar, mas que de uns tempos pra cá, pra mim, fica indiferente porque a energia de fora é baixa demais pra me fazer expelir a minha energia alegre e vibrante.


Que o próximo ano seja, sim, um ano de luta, mas que a gente possa descansar e se livrar desse peso imenso que foram 2020 e 2021.

Paz a todos!

Cuidem-se!

#forabolsonaro