• Amanda Leal

Bora viralizar o amor?

Nesse mês do Orgulho LGBTQIA+ e em clima de Dia dos Namorados eu gostaria de falar sobre o amor que se reconhece na ancestralidade e desfaz traumas. O amor entre duas mulheres negras que provoca uma grande revolução que é o cuidar de nós. Estou falando de afeto, de encontro. Quem disse que só de dor vive a mulher negra?

A sociedade não está preparada para cenas de um cotidiano afetivo entre lésbicas negras. Em um imaginário social nós não desfrutamos as sutilezas do cotidiano, como se o simples afeto não nos pertencesse. Não é comum vermos narrativas de amor entre mulheres negras plenas e felizes, sempre as mesmas narrativas de sofrimento e dor.

E para começar, quero indicar para vocês a série “Meu amor: Seis histórias de amor verdadeiro” que está disponível na Netflix. O quinto episódio conta a história de amor entre Nicinha e Jurema, duas mulheres negras lésbicas, umbandistas, empregadas domésticas casadas há 40 anos e moradoras da favela da Rocinha. A série ressalta não só a afetividade entre as duas, mas as questões religiosas, relações de cuidados e a rede de apoio entre elas. A história delas reflete todo tipo de resistência, ao mesmo tempo que identificamos os diversos marcadores sociais que atravessam a vida delas, podemos sentir o afeto que existe naquela união, o cuidado e o amor da mulher preta que cura.

Bem, a minha história não é diferente: casada há 7 anos com a Fernanda, duas mulheres negras, periféricas, com uma diferença de idade de 17 anos, eu poderia discorrer centenas de linhas e falar de todas as formas que as opressões de classe, raça, gênero e sexualidade atravessam nossa história, mas hoje quero falar sobre o amor que alivia: Quando conheci o amor entendi que ele é sinônimo de casa, é o aconchego e a paz de fim de dia. Percebi que ele é o cheiro de café de manhãzinha, o orvalho caindo da folha anunciando um novo dia. Foi apenas quando conheci o amor que pude entender meu passado e projetar meu futuro; o amor me deu direito à memória, entendi sua força transformadora.”, por bell Hooks (2010).

Há sete anos, quando cheguei ao Rio de Janeiro para morar com a Fernanda, éramos duas mulheres marcadas pelo racismo, pela violência doméstica, nossas bagagens estavam cheias de traumas e frustrações. Duas mulheres atravessadas, machucadas, mas para além disso eu descobri que encontrar alguém para dividir a existência é uma dádiva. Amar a Fernanda é como me olhar no espelho, os traços negros, nossos olhares de reconhecimento, referências e cuidado, aprendemos que o amor entre nós é revolucionário e que o amor curava as dores mais profundas, que amar outra mulher preta era transgressor para o processo de amar a mim mesma.

Há pouquíssimo tempo aprendi o que era amar, me permiti compartilhar não só as dores e os traumas que carregávamos, mas também compartilhar desse amor tranquilo e clichê, sim também vivemos amores clichês e quem me conhece sabe que eu sempre repito a mesma coisa “Fernanda é meu amor de filme”. Não é romantizando nossas lutas que não são poucas, é apenas nos permitindo viver esse amor que sempre nos foi negado, é fazer declarações públicas e políticas para demonstrar a importância do amar, é mostrar que o amor também é para nós. Sempre nossas narrativas viralizavam sob uma perspectiva de dor e sofrimento, quero que histórias de mulheres negras se amando viralize também, que possamos falar mais sobre esse amor revolucionário e questionar a lesbofobia que silencia a nossa felicidade de amar outra mulher negra.

“Amar outra mulher negra é a verdadeira celebração do encontro das águas” - Samira Soares @narrativasnegras

E hoje eu deixo vocês com essa musiquinha gostosa que diz muito sobre nosso amor.


Anavitoria – Explodir

“Do amor já disse tanto

Meu coração já passeou em tanta casa

Agora eu vejo que eu nem sabia nada

Amar é mais do que dizer do amor

E a gente se escolhe todo dia

E eu te escolheria mais milhões de vidas

Porque uma só é pouco com você, amor

Eu quero tudo o que eu puder viver, amor” ...