• Claudia Kopelman

A mulher com paralisia cerebral

Falar em inclusão é também poder ver com uma lupa a exclusão daqueles que são considerados “diferentes”, não aceitos pela sociedade de um modo geral. Quando criança, vivenciei algo que me marcou profundamente. Com meus oito anos de idade fui expulsa de um colégio judaico. Na época não entendia por que fui excluída. O que uma menina mirrada com essa idade poderia ter aprontado para ser expulsa? Com o tempo fui entendendo que eu era “diferente” das outras crianças. Fui considerada “criança-problema”, um rótulo grudado mim, a ponto de ser banida daquela instituição. Isso ocorreu no fim dos anos sessenta, início dos anos setenta, em plena ditadura. Era uma criança alegre, livre, daquelas inquietas, curiosas, normal de qualquer criança. Hoje com a minha vivência, depois de algumas terapias vejo que era a escola que não era adequada para mim e não ao contrário.


Me lembro sempre de gostar de pessoas fora dos padrões, aquelas que costumam ser chamadas de esquisitas. Eu mesma brinco com as minhas esquisitices; nasci com seis dedos na mão direita (foi retirado na maternidade), sou surda do ouvido esquerdo desde os 2 anos de idade, ouço em mono, baixinha quase anã como costumo dizer (1m 48cm) e por aí vai.


Um ano antes de prestar vestibular, em 1982, passava na TV uma campanha da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) em que diziam que aquele ano era o Ano das Pessoas com Deficiência. Me intrigava ter só um ano das pessoas com deficiência. Para mim todo ano é o ano da pessoa com deficiência, da pessoa negra, da mulher e da pessoa trans por exemplo. Resolvi que iria trabalhar com essas pessoas. Cursei pedagogia voltada para pessoas deficientes da áudio comunicação. Trabalhei na área de educação com pessoas com diferentes deficiências e com baixo poder aquisitivo.


Fui fazendo outros cursos, outras formações. Hoje sou Arteterapeuta e faço Acompanhamento Terapêutico – A.T.


O acompanhamento terapêutico nasceu como uma proposta antimanicomial, com a intenção de incluir pessoas com alguma doença psíquica junto à sociedade. Essas pessoas são normalmente excluídas e segregadas, o que leva a um isolamento social. O A.T. surge como uma ferramenta que visa trabalhar com a autonomia e a reinserção na sociedade daqueles que são acompanhados. Os atendimentos são fora do consultório, transitam por diversos territórios; a rua, passeios culturais, a própria casa do paciente entre outros. Atualmente o A.T. também tem sido procurado para outras demandas; pode ser realizado com idosos, ou com pessoas com deficiência, visando igualmente a autonomia e sua reinserção social.


Como minha trajetória vem sendo construída junto à população de pessoas com deficiência, recebi, alguns anos atrás, o encaminhamento de uma mulher poetiza, cadeirante, portadora de paralisia cerebral. Ela estava completamente isolada, inclusive dentro da família. Embora trabalhasse na ONG onde era também assistida, sua vida se limitava a ir ao trabalho por meio período e voltar para casa. Completamente dependente das pessoas ao redor para as questões do cotidiano (tomar banho, não tinha condições de fazer a própria comida etc.), vivia em uma espécie de casulo. Escrevia poesias, chegou a publicar dois livros. Sua escrita era seu modo de expressar o que habitava o seu rico mundo interno. As palavras eram a sua voz potente e sensível. Muitas vezes eu a acompanhava em livraria, cinema, teatro, parques, entre outros passeios. Lembro que era difícil em alguns lugares ter banheiro acessível, ou mesmo ter rampa de acesso. Muito embora seja lei todo estabelecimento como restaurante, bar e museu, ter rampa e banheiros adaptados, nem sempre isso ocorre. Em uma ocasião fomos tomar sorvete, e o único banheiro da sorveteria ficava no andar de cima. Absurdo. Impossível para um cadeirante subir escadas. Pessoas cadeirantes acabam sendo excluídas pelo simples fato, de construções arquitetônicas não serem pensadas para esse público. É como se não existissem para a sociedade. Muitas vezes pessoas com paralisia cerebral são confundidas como seres humanos desprovidos de inteligência, de desejos e sonhos. Para essa jovem mulher, ter podido transitar em espaços públicos e viver novas experiências, ampliou seu universo abrindo possibilidades, até então inacessíveis. Conquistou mais autonomia e foi aos poucos concretizando alguns desejos adormecidos. Foi um trabalho terapêutico que durou quase seis anos, em que houve muito aprendizado de ambas as partes. Vejo como essas pessoas portadoras de paralisia cerebral precisam ser vistas e respeitadas. Mulheres portadoras de paralisia cerebral também têm desejos, querem ser amadas e desejadas como os demais seres humanos.