• Larissa Queiroz

A culpa que eu não carrego mais

Será que a vida de mãe tem que ser um fardo o tempo todo?


Estou escrevendo esse texto em uma Sexta-feira Santa, feriado nacional, e João, meu primogênito de 7 anos, voltou pra casa ontem depois de ter passado 4 dias na casa do pai. Passamos um dia delicioso, cheio de conversas, comidinhas, soneca pós almoço… matando as saudades, né. Essa é a saudade que eu faço questão de sentir.


Eu e o pai do João somos um casal que escolheu morar em casas separadas. Depois de uma tentativa não muito bem-sucedida de casamento convencional, nos redescobrimos em uma relação cheia de amor onde não é necessário dividir o guarda-roupa, nem o banheiro. Fora os cômodos, também ficaram de fora dessa divisão as tarefas domésticas que sempre catalisaram grandes discussões. A minha louça é só minha e a roupa suja dele, é só dele. Parece egoísmo e falta de habilidade de convivência, mas o sistema patriarcal e o machismo são muito mais fortes dentro de uma casa do que a gente possa imaginar e, depois que nos damos conta disso, não há forma de voltar atrás sem que muitos e muitos termos estejam acordados.


O lado muito bom desse arranjo, é que somos mais livres para curtir tanto o nosso relacionamento, como o relacionamento com o nosso filho. Por mais que ele fique muito mais na minha casa, ele tem total liberdade de ficar só com o pai quando quiser. Nós também dividimos as casas, passando alguns dias uns com os outros. Ele está sempre amparado e cuidado por nós de forma plena, segura e feliz. As micro tarefas ainda são muito mais minhas, como cuidar dos prazos da escola, dias de atividades, médico, dentista, roupa, calçado e alimentação do dia a dia, é verdade. E é por isso que eu dou tanto valor a essa divisão de moradias e de tempo, com um e com o outro.


Não me faço de rogada quando João quer ir para a casa do pai. Agradeço, até. Nesses dias eu durmo algumas horinhas a mais, me alimento de alguma besteira, não lavo louça, assisto a dois filmes seguidos, adianto um trabalho atrasado. Tudo isso sem culpa alguma. Não acredito que a vida de mãe tenha que ser um fardo pesado, 24 por 7, uma condenação sem anistia. Eu materno com prazer e com saúde. Se não, porquê ter feito essa escolha? E penso que é o que o pai dele faz todos os dias que não está com ele também. A nossa geração está lutando pela igualdade de direitos, não é mesmo?


Mas entendo também que eu sou uma modalidade de mãe solo não muito comum. A grande maioria das mulheres não conseguem vislumbrar essa alternativa de divisão de cuidados. E quando há, fazem de 15 em 15 dias. Cresce o número de pais e mães que fazem guarda compartilhada quando separados, mas também é enorme o número de pais ausentes na criação dos filhos. Enfim, temos muito a falar sobre desenvolvimento familiar ainda. Contudo, dentro das minhas possibilidades e da minha realidade, tento demonstrar para outras mulheres mães que a maternidade pode ser mais leve e justa.


Escrevo esse texto grávida de 31 semanas do nosso segundo filho e ainda não sei como essa divisão de casas e tarefas vai se dar daqui pra frente. Mas, com certeza, eu volto aqui pra contar pra vocês.