• Bella Neto

8M: uma construção socialista

Parece que o 8 de março é só mais uma data que o capitalismo usurpou do calendário para usá-lo como ferramenta para o consumismo e manutenção da própria lógica alienadora que esse sistema precisa para nos manter longe das lutas, das opções de transformação, nos roubar a história. É uma ferramenta muito eficiente, mas o 8M é sim o início da revolução!


Você certamente conhece a história sobre o incêndio em uma fábrica que matou cerca de 130 operarias, em 1911, em Nova York. Essas trabalhadoras estavam em um dia de protesto e o incêndio teria sido causado pelo proprietário em retaliação à organização dessas mulheres que protestavam contra as condições insalubres de trabalho, isso de fato aconteceu, mas a comemoração da luta das mulheres nessa data está ligada a outro processo.


Temos que pontuar duas coisas importantes aqui: a primeira delas é que em 1910 ocorreu a II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, um encontro que reuniu 17 países que buscava organizar internacionalmente a luta pelo voto das mulheres e já nesse momento foi idealizado a criação do “Dia da Mulher”, que esse dia promovesse a propagando do sufrágio feminino e teria um caráter internacional. O segundo ponto importante é que essa data se consagrou de fato na Rússia no dia 23 de fevereiro de 1917 (no calendário juliano, 8 de março no calendário gregoriano), nesse dia houve uma grande mobilização, o país passava por um período de fome e miséria muito agudo em decorrência da guerra que se iniciou em 1914. A revolta da massa camponesa e operária foi determinante para todos os acontecimentos seguintes desse mesmo ano (essa revolta ficou conhecida como Revolução de Fevereiro). O fato é, tudo isso foi desencadeado por uma greve geral de mulheres operárias do setor têxtil que manifestaram-se contra o czarismo e a participação da Rússia na 1° Guerra, elas pediam “igualdade, pão e terra” e isso tudo transformou o sentido do lugar que as mulheres ocupavam social e politicamente no mundo todo.


E por que conhecer essa parte da história é importante para a construção do 8M de 2021?

Precisamos voltar às nossas origens para entender o papel que certas datas e certas lutas ocupam, precisamos tomar pra nós elementos que o capitalismo nos roubou e trazer para nossa realidade. A luta das mulheres deu início ao que foi a revolução russa, foram as camponesas e socialistas que entenderam a necessidade de as mulheres votarem e participarem da vida pública em seus países, mulheres operárias, mulheres camponesas, MULHERES TRABALHADORAS.


Mulheres foram e seguem sendo vanguardistas nas lutas contra as opressões e contra a lógica opressora capitalista, por isso o sistema tenta a todo custo nos roubar essa data, subverter o significado feminista e socialista desse dia, mas as trabalhadoras seguem resistindo e tomando pra si o valor e a herança do 8 de março.


Tivemos a “Primavera Feminista” em diversos países. O movimento “Nem Uma a Menos”, que também fez com que milhares de mulheres se reconhecessem umas nas outras como seres políticos, a Marcha de Mulheres à Washington nos Estados Unidos (Contra o Trump), o #EleNão contra o Bolsonaro, estávamos distantes, mas estamos nos reorganizando e buscando em nossas origens, em nossos antepassados, a força e a coragem para a luta, que não é fácil, mas a cada dia se torna mais urgente.


8M: mais que um dia de resistência, mais que um dia de honrar as que vieram antes, é dia de nos organizarmos contra todas as opressões que nossos corpos e nossa existência passam. O 8M é dia de me reconhecer em cada companheira de trabalho, em cada mãe, em cada mulher preta que sofre a perda dos seus para um Estado assassino e genocida, em cada mulher trans que tem sua existência questionada e invalidada, o 8M é dia de luta política, é dia de afeto entre nós e é dia de exigir “IGUALDADE, PÃO E TERRA”! As revoluções só podem acontecer se as mulheres tomarem pra si o que lhe são por direito.

Por um 8M de Luta, afeto e coragem!

Sejamos Gentis e Tenhamos Coragem!